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Torres Novas sob o signo do Estado Novo

Após o golpe militar de 28 de Maio de 1926, e com a institucionalização do Estado Novo, o país assistiu a uma grande aposta no domínio das obras públicas. Estes primeiros anos, do denominado “ressurgimento nacional”, coincidiram também com a emergência na cena política portuguesa do Dr. António de Oliveira Salazar (1889-1970). A sua ascendente influência no governo levaria o país a cair numa tenebrosa ditadura, que duraria mais de quarenta anos.

Mas os primeiros anos da actividade política do homem de Santa Comba Dão até foram bastante elogiados. São
de destacar a sua importante acção no sector das finanças e também nas obras públicas. Tendo, neste último caso, levado a cabo a construção de importantes infra-estruturas por todo o país.

Na divulgação da campanha de modernização do país, Salazar não prescindiu da máquina de propaganda política do Estado Novo. Suporte ideológico do regime, que tinha como principal finalidade legitimar as suas tropelias através da obra feita. Numa toada não muito distante do que se passa, hoje em dia, no nosso travestido sistema democrático.

A propaganda em torno das virtudes do Estado Novo ganhava maior dimensão na altura das principais efemérides nacionais. Com principal destaque para o dia 28 de Maio. Uma espécie de 25 de Abril dos tempos actuais.

Nesta linha de exaltação ideológica insere-se o sugestivo título que encima o suplemento do jornal “O Século”, dedi
cado ao distrito de Santarém, que passamos a transcrever: “A Alegria que Hoje apresentam os habitantes do distrito de Santarém é bem reflexo da satisfação que lhes oferecem os melhoramentos que o 28 de Maio inaugurou em todos os concelhos” (“O Século”, terça-feira, 28 de Maio de 1935).

Como podemos inferir no texto, o novo regime pretendia vincar a ideia de que o país e as pessoas viviam agora mais felizes e em segurança. O suplemento do jornal é bastante persuasivo sobre esta nova realidade, justificando-a com base nas obras realizadas e dos novos projectos para os diversos concelhos do distrito de Santarém. A sua divulgação tinha como principal objectivo enaltecer a obra que se estava a fazer sob a égide das comissões administrativas do Estado Novo. Numa clara demarcação face às anteriores comissões executivas. Nem sempre rigorosas na gestão do erário público.

No caso de Torres Novas, e segundo as palavras do então presidente, Gustavo de Bivar Pinto Lopes (1864-1944), a vila até ao ano de 1926, fora exemplo disso. Mas fruto das comissões administrativas afectas ao Estado Novo, Torres Novas sofreria enormes melhorias. “Colocando-a à cabeça de todas as outras do resto do distrito”.

Muitas alterações se deram na então “renovada” vila torrejana. De algumas ainda hoje retiramos o benefício da sua construção. Outras seriam substituídas por força do avanço tecnológico e urbanístico. Como aconteceu ao poço do antigo Largo Presidente Carmona (actual largo Humberto Delgado). Que estava situado no ponto em que a rua da Arrábida entesta com a Avenida das Amoreiras. O presente artigo revela uma antiga imagem do extinto poço. Julgamos que a sua divulgação terá a virtude de despertar, nos velhos habitantes do Rossio de São Sebastião, as memórias emudecidas pela inexorável marcha do tempo.

O início da construção do poço data de 1933, e foi desencadeado pelo vereador da Câmara, Capitão Vieira, a fim de suprir a necessidade de água às populações do Rossio e de Santo António. Como se pode ver pela fotografia, o poço tinha quatro acessos feitos por lanços de escadas. Para aceder à escassa água do poço era preciso movimentar uma bomba manual através da força dos braços. Tarefa bastante difícil para as mulheres e crianças, por causa do seu pesado mecanismo.

Durante quase duas décadas o poço continuou a servir a população local. Até que, em 1952, com a extensão da rede de abastecimento da água à zona alta, acabaria por desaparecer. Neste período inicial do Estado Novo (pródigo em construções) Torres Novas assistiria, finalmente, no dia 5 de Maio de 1935, à inauguração da então Avenida Gago Coutinho e Sacadura Cabral, pelo torrejano Dr. Rafael Duque (1893-1969). Que, na altura, exercia a função de Ministro da Agricultura no governo de Salazar. A ideia de construir uma Avenida marginal já vinha de longe. A iniciativa partiria do velho semanário torrejano “O Almonda”, na entrevista entabulada com o então presidente do município (nº 175, de 26-11-1922).

Muitos retrocessos e desentendimentos envolveram o difícil parto da mais bonita Avenida da cidade de Torres Novas. O ilustre historiador Joaquim Rodrigues Bicho (1926-2015), no seu livro “Pinceladas Torrejanas” (2000), descreve, deliciosamente, as inúmeras peripécias que envolveram a sua conturbada edificação. Avenida que na nossa singela perspectiva deveria ostentar o nome de Gustavo Pinto Lopes e não o do Dr. João Martins de Azevedo. Se os primeiros passos da sua construção couberam a este último, foi da responsabilidade de Gustavo Bivar Pinto Lopes que saíram as mais importantes concretizações paisagísticas e urbanísticas efectuadas na Avenida Marginal. A segunda fotografia do texto revela-nos a actual Avenida Dr. João Martins de Azevedo numa fase embrionária (na entrevista, Gustavo Pinto Lopes refere que os próximos passos a desenvolver na Avenida seriam a sua macadamização e arborização). Na altura da presente foto já existia, na Avenida Marginal, o colégio Andrade Corvo (foi inaugurado a 10 de Abril de 1934).

Esta imagem tem a particularidade dar-nos a conhecer a Avenida despida de casas, de arvoredo e ainda com o pavimento térreo. Que, em dias chuvosos, causava enormes transtornos aos alunos do colégio. Só em 1943 é que os actuais cubos seriam colocados. Na entrevista, concedida ao jornal “O Século”, Gustavo Pinto Lopes aflora ainda a ideia de construir uma outra Avenida, em Torres Novas. A projectada Avenida “[devia] sair do Arco de Santo André, quase à entrada da vila, para ir ligar com a Avenida Gago Coutinho e Sacadura Cabral, perto do Largo Pimentel Pinto [actual Largo das Forças Armadas]”. Segundo o ilustre torrejano, a sua “construção [tinha] por fim principal descongestionar o movimento da vila que [era] excessivo para o seu trânsito”.

À futura Avenida (que não chegaria a ser construída) Gustavo Pinto Lopes pensava “ dar o nome de Dr. Oliveira Salazar”.(A filiação do ilustre torrejano ao regime salazarista justifica-se, apenas, pelo facto de, nesta altura, ainda não serem visíveis os grandes males que o fascismo iria provocar). Sob o signo do Estado Novo efectuaram-se, no concelho de Torres Novas, importantes melhoramentos que trouxeram enormes benefícios para as populações locais.

Numa clara demonstração de que os primeiros anos de vigência do novo regime foram povoados de boas intenções. Só que, a reconhecida obra feita, descambou, anos mais tarde, num longo período de estagnação, empobrecimento, enormes desigualdades sociais e repressão. Corroborando a velha lição da História que não podemos negligenciar: as ferozes ditaduras crescem à sombra das grandes revoluções.
Texto escrito com a antiga ortografia.

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