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O Outubrismo Radical Lisboeta – a derrota da GNR e da Marinha

1921 foi o primeiro ano em que o Partido Liberal ganhou a maioria das eleições. Em Maio o presidente António José de Almeida nomeara, substituindo o governo de Bernardino Machado, que a 21, é confrontada com forças da GNR que ocupam posições no parque Eduardo VII, exigindo a demissão ministerial, um liberal, Tomé de Barros Queirós (23/5-30/8), cuja aceitação obrigara à dissolução do parlamento e do senado. O objectivo era controlar o aparelho eleitoral, provocando eleições para o Parlamento e o Senado. Assim aconteceu. Em Julho o Partido Liberal derrota pela primeira e única vez o Partido Democrático, vindo a formar um governo conservador, presidido por António Granjo. A situação política continua explosiva. A GNR, estruturada em 1919, como guarda pretoriana da República e reforçada em número de militares, material de guerra e locais estratégicos, servia ao partido Democrático de contenção ao exército, onde grassava um espírito conservador. Inclusive, forma o governo radical do seu comandante Liberato Pinto (30/11/1920- -2/3/1921), que, saído da governação, vem a ser demitido do seu comando em Abril, no governo de Bernardino Machado. A GNR tomou, a partir de então, posições políticas anti-conservadoras, fazendo cair em Maio, Bernardino Machado. Vai apoiar todas as políticas e acções contra o governo de Granjo. E, quando da prisão, a 10/9, por um ano, no forte de Elvas, do seu ex-comandante, como pela acção governamental de concentrar tropas em Mafra, com o aparente objectivo de a desarmar, vai enveredar pela acçao revolucionária. Primeiro, a 30/9, que o Governo aborta. mas a 19/10, unidades da GNR, marinha, polícia, elementos do grupo parlamentar popular, independentes e população civil armada (Ana Catarina Pinto, A Transformação Política de República: o Bloco Radical, in História da 1ª República Portuguesa, coordenação F. Rosas e M. F. Rolo, 448), fazem cair o governo, obrigando o presidente a nomear um executivo indicado pela Junta Revolucionária. Ficou o acontecimento assinalado como Noite Sangrenta, devido aos assassinatos de António Granjo, Carlos da Maia, Machado Santos e outros. Embora não se ligue a direcção revolucionária aos crimes cometidos, os Outubristas perderam «o apoio populacional, incluindo das camadas da média e baixa burguesias urbanas, repudiadas e temerosas perante e violência dos acontecimentos» (A. C. Pinto, sic,449).

O Governo de Manuel Maria Coelho (19/10/1921- -5/11/1921) pouco durou, seguido do de Carlos Maia Pinto (5/11/1921-16/12/1921). Os acontecimentos sucedem-se o Presidente insinua que se demite, mas uma manifestação levada a efeito pela Câmara de Lisboa, leva-o a reconsiderar. A 6/11 dissolve o Parlamento, marcam-se eleições parlamentares, para 11/12, adiadas para 8/1/1922, e só realizadas a 29 desse mês. Nomeia então para constituir governo Francisco Pinto da Cunha Leal (16/12/1921-6/2/1922), que, convertido, após a Noite Sangrenta, ao conservadorismo, entra para o partido Liberal, como objectivo de substituir Granjo, com um governo conservador, que vai tomar medidas contra o radicalismo da GNR, conseguindo diminuir-lhe os efectivos, o armamento e a importância. As eleições, como veremos, saem-lhe furadas, já que os democráticos retomam o poder perdido em 1921. Localmente, se a comissão executiva camarária, repudia os assassinatos, enviando telegramas de pesar e solidariedade para com as viúvas dos assassinados (Actas Cam., 27/10/1921), o Governo Civil nomeia um novo administrador do concelho, Joaquim Monteiro Sérgio (17/11), que solicita ao Centro Republicano 5 de Outubro local apoio para a nomeação de regedores republicanos (Corresp. Admin., 17/11, fls. 74/77). A substituição dos regedores nomeados pelo governo liberal dá-se a 28/11 (A. Posse). Mas a crise atinge também o concelho. E, com o governo liberal de Cunha Leal, sobe a administrador o industrial dos Riachos, antigo membro do Partido Evolucionista, agora do partido liberal, Vasco Ferreira (a. Posse, 28/12), que irá preparar o acto eleitoral. A reação mais enérgica contra os acontecimentos revolucionários é assumida pela intervenção do Dr. Alberto Dinis da Fonseca em O Almonda, que assumira um novo formato, a partir do nº 119, de 30/10, com um artigo de fundo Não Matarás. No mesmo número indica-se que a Câmara aderiu à manifestação ao presidente da República, levada a efeito pela de Lisboa, delegando a sua presença no chefe de secretaria Artur Gonçalves. A 11, Hora Decisiva, em que reflecte sobre o perigo revolucionário que pode submergir o país (Idem, nº 121). A 27, na secção De uma Semana a Outra, congratula-se com a aliança liberal, reconstituinte e democrática, para participarem juntos nas eleições (id., Nº 123, 27/11). Na semana seguinte, na mesma secção, congratula-se pelo programa comum conseguido, sem deixar de insinuar que «a parte de leão ficou para os democratas» (id., nº 124, 4/12). As dissensões irão provocar que os democratas resolvam ir às urnas sós e voltem, a 29/2, a ganhar a maioria no parlamento e no Senado.

O autor escreve segundo o ­antigo­ acordo ­ortográfico

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