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Pastor licenciado

 

Eu não vi, não ouvi, tão pouco li… Quero dizer; já sabia dessa notícia mas duma conversa de boca a boca! Não imaginava que o simples facto de precisarem de um pastor, um pastor com conhecimentos, corresse tão célere de orelha a orelha, notícia de televisão, abertura de rádio, parangona de jornais… Mas o facto é que lá para Chãos, estão precisar de um pastor. Chãos são uma aldeia onde se vai propositadamente porque a estrada de ida é a mesma do regresso. Está encarrapitada suficientemente alta para o olhar se espreguiçar até ao horizonte, ainda assim não tão alta que não chegue, como uma praga da sociedade, cada mais tecnológica, o permanente zumbido da energia do vento. Renovável, inesgotável, não poluente e ainda assim tão cara que há uns dois anos fez subir o preço do kilowatt em nossa casa…

 

Mas o que fez a noticia foi a palavra licenciado, pastor licenciado…O que não faltam são licenciados, doutores, engenheiros, arquitectos… Estou em crer que todos os anos se licenciam mais pessoas do que a quantidade de pastores que apascentam rebanhos por todas as serras de Norte, a Sul… Muitos estão no desemprego. Então e para ser pastor! Os pastores que conheci, e conheço, sempre me diziam que gostavam de andar. Pudera o dia a dia dum pastor é cronometrado pelo passo do rebanho, a sua liberdade é a dos espaços abertos, a sua prisão cada uma das suas cabeças de gado! Como é que o pastor conhece cada animal do seu rebanho, como é que consegue dizer ao cão, um daqueles cães farfalhudos de olhar arisco e curioso, para ir voltar aquele, não esse, aquele animal, que está fora do rebanho… Digam-me lá talvez não exista outra escola que os montes o os vales para aprender a ser pastor, mas não será isto também uma espécie de licenciatura? O pastor que precisam em Chãos será um misto de Alberto Caeiro, o rebanho é os meus pensamentos e os meus pensamentos são todas as sensações, com um pouco do Constantino guardador de vacas e de sonhos que conhecia todos os ninhos… Mas mais do que isso! Precisa-se de um de pastor de cabras porventura o verdadeiro pastor… Por alguma razão as cabras são o símbolo do demónio; o bom pastor da bíblia apascentava ovelhas. Os faunos andavam pelas florestas em alegres brincadeiras, meios homens meio cabritos…. As cabras são sempre as primeiras a comer e as ultimas a morrer à fome! O que quer isto dizer perguntei eu ao pastor… Pois se uma cabra pensar que no cimo daquela fraga existe uma erva que quer comer não descansa enquanto a não alcançar, no entanto se nada mais houver para comer ela come qualquer coisa que apanhe.

 

Mas a verdade verdadeira do pastor licenciado tem algo de muito mais vasto que nos faz pensar. Tem a ver com a gralha-de-bico-vermelho e com a sua preservação, já que o pastoreio extensivo impede o avanço dos matos, que, se não forem controlados, causam o desaparecimento dos escaravelhos e de outros artrópodes de que ela se alimenta. Um pastor licenciado tem de perceber que a paisagem da serra resulta duma intervenção inteligente por parte do Homem, que consegue extrair uma multiplicidade de bens, sem comprometer a sua utilização pelas outras gerações. Um pastor licenciado deve ter pernas papa-léguas, deve saber reconhecer as plantas e os animais, deve saber falar com calor sobre a sua Serra…É mais ou menos assim que eu me lembro dos pastores….

 

Qualquer dia, quando se perderem pela Serra dos Candeeiros, lá para os lados de Chãos, depois de um bom almoço de cabrito talvez se encontrem com um pastor que vos saiba mostrar as acrobacias das raras gralha-de-bico-vermelho ou aquelas erva, que já escasseiam, tão perfeitas a imitarem abelhas que enganam os abelhões…

Pode bem ser, eu acredito que aconteça….

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