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“Comentando” Jorge Morte

Faleceu na semana passada, um bom amigo meu desde há muitos anos, desde que ingressei no Choral Phydellius e já lá vão mais de 57 anos a esta parte. Colega da música e das músicas, era um razoável instrumentista no órgão, acompanhando o coral em peças de música clássica nos seus primeiros tempos de vida. O Jorge Morte era uma pessoa especial, bastante reservado e que se não dava em excesso, possuidor de uma cultura que foi consolidando ao longo de toda a vida, e é bom recordar as suas crónicas de há uns bons anos, intituladas “Comentando”, que publicava com frequência neste semanário, cheias de interesse e de curiosidades, que facultava aos leitores. Era um apaixonado pela história da nossa cidade e um dos estudiosos habituais nos arquivos da nossa Biblioteca, desde há imensos anos. Deve aliás ter deixado inúmeros escritos, que fazia à mão, pois não era muito dado aos computadores e bom seria que os seus descendentes procurassem coligir esses estudos e opiniões e os fizessem chegar ao conhecimento público, pois tenho a certeza que seriam uma mais valia para a história desta terra. O Jorge Morte era um bom baixo no Phydellius, chegando a reger o Coro quando o maestro Fernando Cardoso foi para o Ultramar e antes do maestro Adelino Vieira Santos. Também foi solista do coro, pelo menos numa peça russa muito bonita que era enriquecida pelo seu belo timbre vocal. Sempre teve opinião própria e comigo e com o Gualter Pedro, formávamos o trio harmonia das conversas fora de horas e fora de portas, normalmente sobre política e sobre a ditadura. Eram horas e horas de dias e semanas a fio, que começávamos a conversar ao cair da noite e por aí seguíamos até altas horas, tendo como poiso principal a porta da igreja de Santiago, para disfarçar. Quando alguém se aproximava, a conversa virava para o futebol e sobre aquele penalty que foi mal assinalado. O tempo foi no entanto caldeando o seu temperamento e nos últimos tempos era ele quem me aconselhava a escrever mas nunca dizer mal de ninguém, ele que nunca temeu o risco nem a censura. Nos meses anteriores à sua doença, encontrámo-nos muitas vezes no bar do supermercado Modelo, onde com alguns amigos ainda contávamos algumas histórias com mais ou menos graça, e punhamos em dia as novidades do nosso burgo. Mais um amigo que nos deixa, deixando-nos uma vida de estudo e de apontamentos que, estou certo, serão a curto prazo devidamente conhecidos para não se perderem muitas e muitas horas de pesquisa documental. Que descanse em paz.

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