Indiferença

Nunca imaginei que o Algarve que conheci na década de sessenta mudasse tanto. Conheci um Algarve sem turismo, uma província pobre, com carências de toda a espécie embora já olhada por estrangeiros com mira num futuro desenvolvimento muito problemático com o regime anterior ao 25 de Abril. As belas e extensas praias de águas cálidas atraem cada vez mais gente e assistimos a enchentes nas esplanadas dos restaurantes que são pegados uns nos outros. Não diria que estamos num país cujo deficit é enorme e onde parece não haver dinheiro para a saúde e para a educação. Não acredito que em todas aquelas esplanadas estejam só estrangeiros. Por infelicidade calhou logo, nos dias em que lá estive, que deflagrasse o incêndio da Serra de Monchique. Com dezoito anos e mais tarde com 22 estive acampado mais outros colegas na Fóia que agora ardeu. Porque não ardia na altura e agora arde? Expliquem-me. Só à noite, na televisão, é que eu via as notícias do incêndio porque durante o dia, nas mais diversas localidades do turismo de massas, não ouvia ninguém a comentar, talvez porque ainda estivesse longe de Monchique. Só ouvi uma notícia de Inglaterra a prevenir os seus nacionais por causa do incêndio. Enquanto uns se divertiam, ali mesmo perto do fogo, outros, e foram muitos, nem nisso pensavam porque o incêndio era lá na Serra! Pobre ser humano que só se lamenta, só protesta quando a desgraça lhe bate à porta. Claro que as pessoas estavam em férias e o que menos queriam era pensar em coisas sérias. Nunca ouvi uma palavra de todas as manifestações artísticas a que assisti sobre a dita desgraça. Ali não chegava e portanto não se falava. De duas coisas estou certo: os estrangeiros, sobretudo espanhóis, faziam-se notar pelos seus “carrões” e pelos gastos nos restaurantes e ainda pela maneira altiva com que se mostravam. Ali não era Portugal. Pondo de lado o exagero, mais uma vez notei como somos um país pobre em tudo. Serão só as águas cálidas e as praias imensas que atrairão os portugueses? Não será antes que a ida para o “Reino dos Algarves” dá um certo estatuto porque para lá vão as nossas “personalidades”, os nossos amigos do “jet-set”? Perdoem-me a má-língua.

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