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O Marquês de Alorna em Torres Novas

Até finais do passado mês de Janeiro, do corrente ano, esteve patente ao público, no Museu Municipal Carlos Reis, a exposição “Botão de Alorna – um Português na Guerra dos Franceses”. A louvável iniciativa pretendeu mostrar os vestígios arqueológicos encontrados durante as obras de requalificação do edifício da Praça do Peixe e que remontam ao período das invasões francesas. Entre os artefactos expostos destacava-se um botão com as insígnias do regimento do Marquês de Alorna. Para a entidade promotora o precioso objecto era o elemento-chave que lhes permitia assegurar a tese da presença de D. Pedro José de Almeida Portugal (1754-1813), na vila torrejana. Na nossa humilde perspectiva este ponto de vista é extremamente discutível. O referido botão não se afigura como prova indubitável da presença do 3º Marquês de Alorna em Torres Novas. Isto porque a função de D. Pedro de Almeida, na Legião Portuguesa, identificava-se com o cargo de inspector-geral das tropas portuguesas ao serviço de Napoleão (organizada pelo decreto de 18 de Maio de 1808).Não era a de estar à frente dum exército nacional e autónomo. Ao Marquês de Alorna cabia o papel de recrutar e assegurar a instrução dos soldados, tornando-os aptos a poderem colmatar as múltiplas falhas que iam acontecendo no aguerrido exército francês. Em diversos momentos das guerras napoleónicas os soldados que integraram a sua antiga Legião de Tropas Ligeiras combaterem sem a sua presença. Como aconteceu no cerco a Saragoça.
Apesar de Alorna assumir o cargo de Comandante da Legião, o comando das forças no terreno, das diferentes brigadas e regimentos, estava dividido entre os generais franceses, alguns dos seus antigos companheiros e amigos militares. O que põe em causa a credibilidade da afirmação de que os botões com a insígnia do regimento 19 de Alorna provam a inquestionável presença do Marquês no local dos achados. Na verdade, não é desta forma que podemos garantir his- toricamente a presença de D. Pedro de Almeida, em Torres Novas. Há uma outra forma! E é inequívoca! Para isso, basta consultar os documentos que integram o processo de ilibação do Marquês de Alorna do crime de traição à pátria. Nele constam dados respeitante à presença do Marquês na vila de Torres Novas, durante a terceira invasão dos franceses. Aquando a terceira invasão francesa o Marquês de Alorna integrava o exército do marechal Massena que tinha como objectivo rumar à capital, para assumir o poder no país. Só que a marcha dos franceses sofreu uma enorme contrariedade, na batalha do Buçaco. Impedidos de avançar face às Linhas de Torres, o Marechal Massena resolveu recuar para Santarém e Torres Novas. A vila torrejana presenciou diversos encontros entre os dois distintos militares. A presença de Alorna foi benéfica para a população local. Isto porque, D. Pedro de Almeida, impediu por todos os meios que os soldados franceses cometessem atrocidades sobre os torrejanos. Este pormenor de salvaguardar as populações acompanhou o Marquês ao longo da sua carreira militar.
Em nenhum momento o Marquês roubou alimentos para satisfazer a fome que grassava no seu exército. Já os franceses não tinham o menor escrúpulo em roubar as populações famintas. Mas bastava o Marquês saber das atrocidades para que os culpados fossem advertidos e castigados. As palavras do juiz de Torres Novas, João Lopes da Fonseca, são esclarecedoras da recta atitude do Marquês de Alorna perante as populações. Incapaz de roubar os parcos alimentos dos seu irmãos portugueses: “Todo o exército, se não furtava, não comia, e o Senhor Marquês que nunca furtou, nem mandou criado algum, morreria de fome se um José Alexandrino de Santarém, que o conhecera de antes, lhe não desse algum rústico alimento, de sorte que em Domingo Gordo jantou feijão com carne de porco, graças àquele homem. Foi pois o objecto da mais infeliz tragédia. O seu parecer era de um cadáver e protegeu com toda a eficácia possível os portugueses” (NORTON, José, “O Último Távora”, 2007, pág. 238). A preocupação de Alorna, em defender as populações por onde passava, levou-o a desentender-se com alguns oficiais franceses. Em outra parte, do seu testemunho, o juiz João Lopes da Fonseca diz ter havido, na vila de Torres Novas, um Conselho entre os Generais franceses em que o “culparam da ruína do seu exército por informações erradas e do malogro de toda a expedição” (op. cit., pág. 238). Como pudemos constatar, o testemunho do Juiz de Torres Novas é de extrema importância para que possamos afirmar de forma inequívoca que o Marquês de Alorna esteve na vila torrejana. Tentar aferir a presença do Marquês com base nos botões encontrados
na Praça do Peixe é entrar no domínio da conjectura histó- rica. Texto escrito com a antiga ortografia

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