Home > editorial > Tempo e Beleza

Tempo e Beleza

Os dermatologistas não sabem que com a idade, a pele não fica mais gasta. Ela fica diferente. Sob a luz do verão da vida a pele mostra-se lisa (Lisa, deusa grega da raiva). Sob a luz do outono, a pele se parece riscada, como as teias de uma aranha. É que no outono, a pele revela nossa íntima relação com as aranhas. As aranhas tecem com o próprio corpo as redes do presente, que se torna passado. As rugas, como as teias de uma aranha, deixam na nossa pele as marcas da nossa história. São os fios da vida escritos no nosso rosto. No outono não temos pele lisa (raiva). No outono só temos sentimentos de afastamento (atropos, afastar, Moíra do destino, responsável de cortar o fio da vida dos homens). As estações do ano se parecem com o nosso corpo, pois, quando se vive sob a luz da juventude, é manhã, e faz-se primavera-verão. Quando se vive sob a luz do outono, sente-se perto o inverno, e é neste tempo que descobrimos que as linhas do nosso tear ficaram curtas, o trabalho fica sempre insuficiente, o tempo se encarrega de terminar o que nem bem começamos, o corpo fica diferente e as rugas do rosto deixam perceber que restam poucas linhas para tecer. É nesse instante que o corpo deixa de remendar redes rasgadas e retorna ao lar, à casa do ser, o seu próprio tempo. No lar, pele e alma voltam-se para o reduto da familiaridade e vive-se o tempo da beleza. Ao meio-dia da vida fazemos trabalhos funcionais. É o tempo da techne. Ao entardecer se faz arte, poiesis. Ao tempo do outono o corpo sabe que não seremos salvos pelas obras tecidas. Nem pela fé nas redes lançadas. Mas pela beleza. Ao crepúsculo da vida se retorna à verdade dostoieviskiana de que somente a beleza nos salvará.

Durval Baranowske, diretor

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *