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1921 – A Mudança Conservadora

A política nacional, em 1921, está condicionada por um descrédito partidário: incapacidade de resolução, pelos sucessivos governos, dos problemas do país: luta sindical urbana e rural em defesa da melhoria das condições de vida e de trabalho, influenciada pela revolução soviética de outubro de 1917; crescimento do associativismo económico e industrial do patronato que enriqueceu com a guerra, a moagem, a União dos Assuntos Económicos; a revitalização do catolicismo, desde o consulado sidonista; o mal estar do funcionalismo público, do quadro de oficiais do exército, cujos direitos sofrem erosão significativa. As amnistias aprovadas permitiram, por sua vez, a ascensão de monárquicos que conspiraram contra a República, a lugares no parlamento, na administração pública, nas universidades. Acresce a este desvario ingovernável, o papel do Presidente da República, que tudo perdoa, que não assume os poderes constitucionais que a revisão de 1919 lhe permitia. António José de Almeida procura conciliar o inconciliável. O país desgovernado, os militares em revolta, os monárquicos em conspiração, o Centro Católico em defesa do papel da igreja perdido desde a vitória do liberalismo novecentista, os republicanos divididos em partidos mais de interesses que de solução dos problemas. É neste período que o semanário O Almonda muda a sua fisionomia, a 19 de junho de 1921, no seu nº 100. Impresso na Tipografia S. Miguel, apresenta como diretor José Rodrigues dos Santos Júnior, funcionário da secretaria notarial concelhia, editor o comerciante Manuel Rodrigues Cardoso. O jornal toma a orientação do Centro Católico, sob coordenação do notário Dr. Alberto Dinis da Fonseca, que é durante este ano, até ser eleito deputado nas eleições de janeiro de 1922, o seu verdadeiro editorialista político. Período conturbado. Cai o governo de Bernardino Machado (2/3/1921-23/5/1921), com uma tentativa de golpe revolucionário da GNR, que ocupa posições no Parque Eduardo VII, a 21, exigindo a demissão do governo. Sucede-lhe o do liberal Tomé José de Barros Queirós (23/5 – 30/8). A incontrolável situação política conduz à dissolução do parlamento e a eleições legislativas, a 10 de julho.

Recuemos à queda do governo democrático de Bernardino Machado e à constituição do de Barros Queirós. Localmente, a primeira medida visível é a nomeação do administrador do concelho, sendo exonerado o democrata Joaquim Augusto de Paiva Faria (A. Posse, 21/4/1921) pelo conservador liberal o notário José Manuel Rodrigues (A. Posse, 10/6/1921), que fora vereador na Câmara Sidonista. A segunda mudança é a dança dos regedores, sendo substituídos todos os anteriores, por outros, mais conservadores, sem grande fervor republicano. Mas a renovação mais profunda, desde o sidonismo, é o da normalização da vida católica concelhia, a que não é alheia a ação de figuras locais ligadas ao CADC de Coimbra, como o Dr. Alberto, o Dr. Carlos de Azevedo Mendes, cujas famílias se ligaram por laços de casamento. Assim como a importância na hierarquia da igreja católica do Arcebispo de Évora, natural dos Soudos, com presenças periódicas no concelho durante o ano em curso. Já em abril, quando da inauguração do túmulo do soldado desconhecido, no Mosteiro da Batalha, a 9, onde as exéquias religiosas foram da responsabilidade do Bispo de Beja, Dr. Patrocínio Dias; no dia anterior, na Basílica da Estrela, o Arcebispo de Évora preside ao ato solene. (Rego, cit., pg. 1439. A estas três figuras, o primeiro, presidente da Juventude Católica Portuguesa, que representa no Congresso internacional da Juventude Católica, em Roma, em 9 e 10 de setembro (O Almonda, nº 116, 9/10), o segundo presidente da Comissão Executiva da Misericórdia local, responsável pelo hospital respetivo (Misericórdia, Lº Atas ), o terceiro, agraciado pelo Presidente da República com a grande cruz da Ordem de Cristo (O Almonda, cit., 9/10). junta-se um grupo de senhoras da alta burguesia local, integradas na Associação das Filhas de Maria, parte significativa dos sócios da Clube Torrejano, onde confluem o oficialato monárquico-conservador, sob a égide do coronel Mouzinho de Albuquerque, os monárquicos, tendo como chefe de fila o capitalista Visconde de S. Gião. os liberais cuja figura mais emblemática era a do médico Dr. Vicente de Sousa Vinagre, o clero local, sob a orientação global do vigário da vara, cónego João Nunes Ferreira, pároco de S. Pedro (1904-1932 e do Salvador/1924.1932) (Rodrigues Bicho, a Igreja em Torres Novas no Século XX, pp. 163-164), sendo o orientador da Juventude Católica Torrejana. Não admira, assim, que o semanário se regozije com a realização da procissão do Senhor Jesus dos Lavradores, a 15 de maio, com a presença de mais de 20.000 pessoas (?) (O Almonda, nº 96, 22/5); e da festa da 1ª comunhão, realizada na Igreja do Salvador, a 31 de julho, presidida pelo bispo de Beja, onde participaram perto de 100 crianças. Seguiu-se um almoço nas dependências do Colégio João de Deus e de tarde o Santo Crisma (Idem, nº 107, 7/871921). O papel do semanário como divulgador e defensor do ressurgimento católico concelhio torna-se essencial. Todos os domingos, era a informação concelhia existente.

antoniomario45@gmail.com

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