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Um Ilustre Bibliófilo Torrejano do Século XIX

A Faculdade de Medicina de Lisboa é hoje uma das muitas instituições culturais portuguesas que possui um vasto património histórico que urge manter e cuidar. Por esse motivo, em 2008, a Biblioteca-CDI da Faculdade de Medicina de Lisboa candidatou-se ao con
curso “Projecto de recuperação, tratamento e organização de acervos documentais com revelante interesse histórico, cultural e científico”, da Funda- ção Calouste Gulbenkian. Medida (já em curso) que permi- tirá, preservar, conservar e colocar ao dispor do público os mais de 5000 livros que integram o acervo antigo da Biblioteca da Faculdade. A salutar candidatura assumiu o nome: “A Memória do ensino médico ao longo dos séculos – o espólio Simão José Fernandes”. Para nós torrejanos esta acção diria muito pouco se a ela não estivesse associado um ilustre nome da Régia Escola de Cirurgia de Lisboa: o Dr. Simão José Fernandes. Quem foi o ilustre médico português e o que fez para merecer as honras de encimar o nome de tão importante projecto?
Simão José Fernandes nasceu em Torres Novas a 31 de Agosto de 1793 e faleceu na cidade de Lisboa a 20 de Agosto de 1845. Aluno brilhante, o torrejano ilustre frequentou, nos seus estudos superiores, a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa, onde alcançou o grau de bacharel, em 1823. O desejo de aperfeiçoar a sua formação académica levou-o a ingressar na Faculdade de Medicina de Paris. Na capital francesa, ao fim de sete anos de estudo, concluiu o doutoramento em Medicina, com a tese “De La Péritonite Puerpérale et en Particulier son Traitement par L’Essence de Thérébentine”. A sua comunicação académica foi apresentada e defendida, na prestigiada Faculdade de Medicina, a 23 de Agosto de 1830. As diversas obras de referência consultadas (Artur Gonçalves, “Torrejanos Ilustres”, inclusive) referem 25 de Abril de 1830, como o dia da apresentação da tese. O que não é verdade. Como podemos verificar pela data inscrita na capa da referida obra médica do torrejano ilustre. A tese foi dedicada por Simão José Fernandes à sua mãe e irmão. Com este trabalho de investigação o torrejano ilustre pretendia combater o elevado número de casos mortais verificados nas mulheres, em resultado da infecção puerperal. Uma doença que afecta, principalmente, o aparelho genital feminino após parto recente. O tratamento proposto por Simão José Fernandes passava pelo recurso à essência da terebentina, quer por via interna quer por acção externa. Ao longo da obra o torrejano ilustre apresenta de forma documentada diversos casos clínicos que corroboram os efeitos benéficos da aplicação da referida solução. Muito mais eficaz que os tradicionais tipos de tratamento. Por outro lado, os riscos do uso da terebentina nas pacientes eram menores do que os processos até aí utilizados. Concluído o doutoramento, Simão José Fernandes mantém-se durante alguns meses em Paris, antes de regressar a Portugal. Em 28 de Julho de 1831 foi admitido no Hospital Real de S. José. Ao fim de quase três anos a desempenhar as funções de médico assume, a 2 de Março de 1834, os cargos de médico da tarde e de inspector da botica (farmácia). O torrejano ilustre ainda exerceria, em Lisboa, as funções de médico na Santa Casa da Misericórdia e no Hospital da Marinha. Uma faceta pouco conhecida de Simão José Fernandes foi a sua ligação à Maçonaria (talvez uma das razões que explicam a sua ida para Paris, a fim de completar os seus estudos na Faculdade da capital francesa). Fez também parte da Sociedade Literária Patriótica (1822). Grémio a que pertenceu um outro maçon torreja- no e Doutor em Leis, Francisco Luís de Gouveia Pimenta (1786-1845). Simão José Fernandes acumulou, ao lon- go da sua vida, um importante espólio de obras raras e antigas. Particularmente ligadas à medicina. Muitas das edições adquiridas pelo eminente bibliófilo torrejano pertencem aos séculos XVI, XVII e XVIII. A paixão pelos livros levou-o a juntar cerca de 4.000 obras, que foram legadas pelo torrejano ilustre à Escola Médica de Lisboa. Instituição predecessora da actual Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa. O acervo doado pelo Dr. Simão José Fernandes é demasiado vasto e importante para que possamos, neste curto espaço, fazer uma justa apreciação dos inúmeros e raros títulos que enferma. Para dar uma pequena ideia deixemos aqui três preciosos títulos escritos numa língua que deveria voltar aos bancos da escola – onde nunca deveria ter saído –, o latim: o livro C. Plinii Secundi historiæ mundi libri XXXVII: a Sigismundo Gelenio…: accesserunt ad marginem variae lectiones ac notae exPintiani, Adr. Turnebi, Ios. Scaligeri, Iusti Lipsi & aliorum doctissimorum virorum …. – S.l. [Lyon]: Apud Petrum Santandreanum, 1582; o livro Magni Hippocratis coi opera omnia, latine tantum edita / Hippocra- tis; Joan. Antonidae Vander Linden. – Secundum editionem Lugduni-Batavorum anni 1665. E, talvez o mais importante: Andrea Vesalii Bruxellensis, invictissimi Caroli V. Imperatoris medici, De humani corporis fabrici libri septem. – Basileae: per Ioannem Oporinum, 1555. Trata-se da segunda edição (a primeira foi publicada em 1543). Como pudemos constatar, houve por parte da Biblioteca da Faculdade de Medicina razões mais que suficientes para que colocasse à cabeça do projecto de recuperação e divulgação das suas obras antigas o nome do torrejano ilustre. O gesto da digníssima instituição reflecte o seu reconhecimento e a justa homenagem à memória de Simão José Fernandes. Um caso raro de paixão e espírito de dádiva.

 

Texto escrito com a antiga ortografia

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