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Umas horas pelos outros

Aquele rosto marcado pelo tempo nunca me saiu da cabeça. Todos os anos ela estava à janela de manhã e ao fim do dia a ver o movimento das Madames Marias a bambolearem- -se no seu francês tremeluzente, dos carros a buzinar e das gentes que iam para a praia. Ela sentia o cheiro da comida indiana que deambulavam de mesa em mesa e escutava o agitar das ondas daquele mar que tão bem conhecia. Conheci-a a caminho da praia. Parei para a cumprimentar e conversar sobre o tempo. Reparei nos seus olhos bondosos e no seu sorriso traquina. Na mesma rua morava outra senhora igualmente bonita e contava-me lindas histórias dos seus anos de juventude.
Era uma rapariga com muitos pretendentes mas apaixonou- -se por aquele que foi seu marido e pai do seu filho. O ano passado encontrei a janela da senhora do olhar bondoso fechada. Disseram-me que tinha ido para a Confraria, ou seja o Lar de Idosos. Subi no elevador e fui visitá-la. Reconheceu-me. Fiquei tão feliz por estar a ser bem acompanhada numa casa onde vive em comunidade. Este ano voltei a visitá-la. Conversámos e também pude conviver com outros idosos. Foi tão gratificante dar um pouco de amor e carinho a estas pessoas que como sabemos já têm uma certa idade e precisam de apoio. Felizmente esta senhora tem família que a
visita e por isso os seus olhos continuam a sorrir e a sua força de viver também. Mesmo estando de férias conseguimos sempre dar umas horas pelos outros. É uma boa opção trocar o sol escaldante ou uma esplanada por estes momentos grandiosos que me fazem crescer e aprender que viver em sociedade é agir em vez de ficar a olhar para o seu próprio umbigo. A vida é uma partilha de emoções e sentimentos. Sou assim. Por isso em cada viagem que faço afasto-me um pouco do roteiro turístico e vou descobrir novos caminhos e comunicar com desconhecidos, já que os conhecidos, por vezes são uma desilusão. Hoje eles amanhã nós.

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