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Sobre margens e abismos

Todos nós, todos, navegamos para um inverno planetário de catastróficas consequências. Entretanto, todos os anos insistimos em remar para os mesmos sítios: ginástica familiar, trabalho obediente, consumos tradicionais, revoltas repetitivas, lamentos carentes, discursos ecológicos e hábitos suicidógenos. Todos os anos celebramos um novo ano, ressuscitando velhos costumes. Mas há uma alternativa e ela está no mar. Como seria se diante das incertezas fossemos diferentes? E se construíssemos uma arca, como a arca submarina de Noé, e lançássemo-nos ao abismo que está em nós? O abismo está no céu, na terra, no mar e dentro de nós. O homem vive em terra firme, por isso tem medo dos abismos, desconhecendo principalmente o abismo do seu próprio ser. E assim como o abismo do ser, o mar absoluto é para poucos desbravarem. Então, para muitos ou quase todos, o melhor mesmo é navegar por mares sem perigo! E de tanto nadar pelas margens, os olhos ficam atrofiados, como peixes no aquário, que não veem nada de novo, e quando vê ficam assustados. É somente no perigo e no abismo que o mergulhador pode descobrir coisas novas. Quem mergulha nos abismos terá para sempre, no olhar, o brilho do mar. E poderá ver com outros olhos. Os olhos de quem aprendeu as lições das profundezas. É preciso ter cuidado com as margens. Elas nos levam à repetição, à segurança, à cegueira, ao bloqueio; sem ideias próprias, sem criatividade, sem alegria. Das margens vive-se o inverno, a primavera, o verão, mas não o outono. O outono é a estação das profundezas. É no outono que está o abismo das incertezas, e é no outono da vida que nos tornamos sábios. Sabedoria é viver as incertezas do presente, escutando o passado sem perder o futuro. Sabedoria é mergulhar com olhos abertos e avistar no fundo do mar-abismal outonos que nos recriam. Sabedoria é contemplar as profundezas, sem ser destruído por elas. Sabedoria é ouvir a voz que diz: “Toca para mares mais profundos” (Lucas 5,4). Pois disso depende nossa esperança, que das margens não podem mais esperar. Durval Baranowske, diretor

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