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Deus-Mar

Fui ao mar. Gosto de ver o mar quando a praia está vazia de gente. O mar, o calor e a praia vazia fazem-me pensar em Deus. Como é inapreensível o mar. Olho para ele e como os gregos antigos vejo um Deus revolto, poderoso, imprevisível. O nosso pensamento sobre o mar é semelhante ao que pensamos sobre Deus. Pois através dos séculos nós poluímos a grandeza dos mares como poluímos a grandeza de Deus com os nossos pensamentos. Mas Deus não se modifica com o que pensamos dele. Ele permanece o mesmo. Os nossos pensamentos dizem que Deus criou o purgatório, um lugar de sofrimento e prisão para aqueles que desobedecem. Este lugar seria como as urgências de um certo hospital, e não mais criativo que as visões de uma histérica. Dizemos também que Deus castiga, e que sente prazer com a nossa murmuração. Dizem até que Deus tem pouca memória e que é preciso repetir certas conversas para que ele se lembre de sua bondade. Dizem que Deus permite o inferno. E tem até homens que se julgam sabedores dos pensamentos de Deus. E por isso até matam quem pensar o contrário.   Mas a grandeza de Deus ignora os pensamentos dos homens. Assim como o mar ignora o grão de sal que pensa possuí-lo. Pois é assim com Deus e nós. O nosso pensamento sobre Deus não tem importância nenhuma para Ele. As nossas ideias sobre Deus tentam aprisioná-lo num buraco da praia, como a criança de Agostinho tentava aprisionar o mar num buraco semelhante, mas Deus não se deixa apreender num buraco. Somos nós que temos a ilusão que Deus está apreendido. Não contemplo um Deus que se deixa apreender. Prefiro o Deus-Mar… Mas algumas pessoas não gostam de um Deus livre. Elas preferem pensar que Deus cabe nos seus buracos religiosos, pois assim ele fica manso, raso, velho, conservador, e, não pode se revoltar.

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