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Artur Gonçalves apreciador de Música Clássica

Por: Vítor Antunes

Gostar de música clássica não passa necessariamente pelo domínio de um qualquer instrumento musical ou por saber os seus mais elementares rudimentos. Há casos de grandes melómanos que cultivaram o gosto pela arte dos sons sem nunca terem passado por uma escola de música. E muitos deles são incapazes de identificar um “dó” numa pauta musical. O historiador torrejano Artur Gonçalves (1868-1938) insere-se neste grupo de diletantes: a sua inaptidão na arte dos sons não o impediu de estabelecer com a designada música erudita uma enorme cumplicidade. Os serões familiares na casa do torrejano ilustre, situada na rua do Tenente Valadim, eram passados a ouvir música, reproduzida pelo seu aparelho radiofónico. Por vezes na companhia dos seus amigos mais chegados. Espírito curioso por excelência, Artur Gonçalves não se limitava à passiva audição da obra musical. Tinha por natureza a ânsia de querer saber mais sobre a história de músicos, das suas composições, das suas vidas e biografias. Atingindo desta forma uma apurada cultura musical. Muito elogiada entre os especialistas da matéria. Alguns anos após a sua morte, um habitual frequentador do número nove, da rua do Tenente Valadim, deixou nas páginas do jornal “O Almonda” o seu abalizado testemunho a propósito do amor à música por parte de Artur Gonçalves. As principais recordações do autor do artigo aconteceram nos serões em que esteve sozinho com o torrejano ilustre. Uma das afectuosas lembranças deu-se na altura em que Artur Gonçalves trabalhava na sua obra “Torrejanos Ilustres” (1933). Enquanto os sons da música eclodiam do velho rádio o torrejano ilustre ia ultimando alguns textos da sua importante pesquisa histórica. Entretanto no aparelho fez-se ouvir um lindo e apreciável trecho da “Rosamund”, do compo
sitor austríaco Franz Schubert (1797-1828). Com o propósito de se inteirar da opinião de Artur Gonçalves sobre a música que estavam a escutar, o seu companheiro dos serões musicais, desculpando-se, quebra o silêncio e questiona o ilustre anfitrião da seguinte forma:
“– Quantas pessoas haverá amigo e Sr. Gonçalves, que ao ouvirem isto nada sentirão?!” Ao que o historiador torrejano responde: “– Pobres deles! Para mim é um precioso mimo musical, emotivo, harmonioso, sensibilizador, próprio de Schubert!… Pobre dele! Morreu tão novo!…” Em traços precisos Artur Gonçalves emitia a sua visão interior sobre o universo musical do compositor austríaco. Música perante a qual apenas a mais empedernida alma pode manifestar uma ténue indiferença. Em jeito de curiosidade basta referir que a célebre pianista portuguesa Maria João Pires, após tocar a Sonata B-dur D 960, de Schubert, saiu extempora- neamente do palco do auditório. Foram encontrá-la, no jardim, banhada em lágrimas. A genial pianista não conseguira suportar a intensa explosão emocional contida numa das últimas obras de Schubert. Digno de referência é também o incomparável e belíssimo Quinteto de Cordas C-dur D 956 do compositor austríaco. Uma das obras mais extraordinárias da história da música clássica. Para o habitual visitante da casa de Artur Gonçalves as apreciações feitas pelo historiador, a propósito da música de Schubert, valeram por todo o serão. Os diálogos sobre música clássica entre os dois amigos eram bastante frequentes. Numa outra ocasião, Artur Gonçalves pronunciou-se sobre a “Catavina” de Joachim Raff (1822- -1882), considerando-a uma composição com bastante originalidade. Ao recordá-lo, o seu companheiro dos serões, afirma que “Artur Gonçalves tinha uma cabeça bem formada e prodigio
sa memória, [retendo] em bom arrumo, vasto e selecto reportório musical com o nome dos seus clássicos autores”. O mundo restrito da Ópera não era desconhecido do historia- dor torrejano. Por diversas vezes deu a conhecer ao seu amigo as emoções sentidas após ouvir alguns destacados trechos operáticos na rádio. No “Fausto”, de Charles Gounod (1818-1893), as canções de Mefistófeles causavam-lhe arrepios; na “Gioconda”, de Amilcare Ponchielli (1834-1886), o bailado das horas lembrava-lhe um Éden, “lugar de delícias, inconfundível jardim encantado, de mimosas flores”. Do “Orfeu”, de Christoph W. Gluck (1714- -1787), retinha as suas divinas melodias; da “Tosca”, de Giaco- mo Puccini (1858-1924), a premonição trágica dos seus reci- tativos; do “Tristão e Isolda” de Richard Wagner (1813-1883), impressionava-o os cantos à tristeza e à dor que enlaçavam os dois amantes… A música, sábia e terna companheira das horas de labuta e de solidão, tinha o poder de encantar o torrejano ilustre. Artur Gonçalves admirava-lhe a sua misteriosa capacidade de exprimir um número infinito de estados de alma. Capaz de falar sobre “a dor, o drama, a tragédia, o patético, o contentamento, a alegria; de descrever os campos, as florestas, o mar, assuntos postais, as vozes da natureza, e tantos e quantos outros mais variados sentimentos…”. Fonte catalisadora das mais sublimes sensações do torrejano ilustre, os sons da música acompanharam Artur Gonçalves até ao final da sua vida. Ocorrida a 11 de Agosto de 1938. Também a música foi o pretexto para que o seu velho amigo lhe rendesse uma sentida homenagem nas páginas do jornal “O Almonda”. Ao recordar as horas em que as duas fraternas almas comungaram silenciosamente a divina arte dos sons. Texto escrito com a antiga ortografia.

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