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De médicos (veterinários) e loucos, todos temos um pouco

Infância feliz

Por: Telma Gomes

É a minha fotografia preferida: teria uns três anos, um vestido xadrez verde e azul escuro, collants azuis escuros e um cabelo encaracolado, coberto pelo eter- no chapéu de palha com uma fita verde da minha infância. Com as duas mãos segurava a trela do Buchi, o meu podengo pequeno de pêlo liso, companheiro de aventuras do meu pai. Esta foto abre o meu albúm dos animais. Não as contei, mas reuni neste arquivo, por ordem cronológica, as fotografias de todos os animais que tive. Olho-as, uma a uma, e só consigo sorrir. Ali, conta-se a minha história. Como sempre vivi com bichos, para os bichos. Sem máscaras, só eu, a Telma que sempre fui e sou. Conheci os terrenos de onde moro, os da minha família e dos meus vizinhos, quando era bem pequena. Com seis anos, passeava os cães pelas fazendas, com o meu pai. Aprendi a reconhecer as árvores, a subir montes sem cair, a caminhar por entre altas ervas, a reconhecer a cama de um coelho e o seu rasto, aprendi o que eram silvas e barreirões. Aprendi a andar de calções e chinelos no meio do mato, sem me importar com os arranhões. Comi nêsperas, figos e diospiros, diretamente das árvores.
Nunca precisei de um tablet, nem de um telemóvel, nem de uma playstation. Tinha o Buchi, o Nero, a Fidalga, o Branquinho, a Boneca, a Preta, a Linda, o Sultão, o Pluto e a Tonta, o Tejo… Tinha uma trela e uma bicicleta. Tinha livros. E tinha tempo: para ler, durante uma tarde de férias, juntamente com um cão, “Uma aventura”, à sombra da oliveira. Para, todos os dias, depois de jantar, testar com o meu pai os nossos conhecimentos sobre raças de cães. Cada um lia a descrição de uma raça e o outro tinha de adivinhar de qual se tratava. Com isso, vieram as tardes passadas em exposições caninas. Era um momento só nosso. Dizíamos galgo afegão, ou weimaraner, e para a minha doce mãe, era chinês. Ríamos. Tinha também tempo para ver, ao sábado de manhã, novamente com o meu pai, o “Companhia dos Animais”. O título diz tudo. Desse programa, recordo a Ervilha, uma podenga pequena, que ganhava todas as exposições em que participava. Orelhas eretas, bran- ca e castanha, com um andar majestoso. A sua semelhança com o nosso Buchi enchia-me de orgulho.
Estas são as recordações mais doces, ternas, quentes e preciosas que tenho. Criei um vínculo com o meu pai em muito baseado no nosso amor pelos animais. Fazia shows para as minhas galinhas, no galinheiro (nem perguntem!). Brincava com as minhas amigas aos veterinários. Aprendi sobre emoções com os meus cães, sobre espaço, com os meus gatos. Sobre a Vida, com os coelhos, as cobras, o ribeiro, as silvas, a terra e a água. Os olhos absorveram, a mente voou. Dou graças pela infância que tive: pelo tempo, pelos animais. Hoje, vejo crianças aborrecidas e “emburrecidas”, sem imaginação, sem sonhos. Assoberbadas de atividades, brinquedos. Cheias do imediato. A si, que lê isto: deixe as crianças serem Crianças. E se lhes der a possibilidade de terem um animal, então poderá ajudá-las a construir as melhores memórias da sua vida. Que a responsabilidade do cuidado não se torne um fardo, um castigo, mas uma aprendizagem. Porque, como disse Anatole France, “antes de se ter amado um animal, parte da nossa alma permanece desacordada”.

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