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Sobre Pelé e Roberto Carlos

Dois brasileiros ilustres podem nos ensinar muito. Pelé foi o que há de melhor no desporto. Apresentando-se de maneira simples, objetiva e obstinada foi mais pertinente e constante que Cristiano Ronaldo. Mais profissional e diverso que Maradona. Para a posteridade, Pelé ensinou que um atleta não pode temer os seus adversários ou valorizar-se tanto ao ponto de perder as suas forças. Na sua carreira, Pelé recusou apressar o passo e a pôr-se em desespero nos momentos difíceis. Pelé teve as ideias de Plutarco, amenas e adaptáveis à nossa vida civil, pois na vida, assim como na profissão, um passo deve ser dado atrás do outro e de cada vez. Assim, diz Virgílio sobre um campeão: “as corridas que ele tenta são curtas”.
Quanto a Roberto Carlos, as obras que dele me podem servir no meu projeto são as que tratam do amor, especificamente do amor ferido. Mas, para confessar ousadamente a verdade, as suas últimas composições parecem-me enfadonhas. Pois os seus arranjos comercialmente populares não vêm sempre a propósito. De Roberto, não quero o último, mas o primeiro ponto, que é a excelência da sua música: agradável e fácil, com pujante uniformidade, doçura e beleza nos versos. O resto se torna diluído e cheirando um pouco às bucólicas.
Para remediar um pouco tão extrema comparação, Pelé, a meu ver, cómodo na vida privada, parece ceder um pouco à tirania dos políticos da bola, pois tenho como certo que é por distração e não por intenção que ele se submete a isso. Roberto Carlos é mais independente, mas extremamente supersticioso. É cheio de manias, mas onde vai é ele mesmo – e por isso é livre.
No entanto há um certo respeito e um dever geral que nos ligam a estes dois reis brasileiros, que têm vida e sentimento. Devemos-lhe justiça e agradecimento pelas alegrias que nos proporcionaram. Há entre eles e nós um certo comércio, uma certa obrigação mútua, pois Pelé inflama-nos. Roberto nos comove. Pelé contenta-nos. Roberto nos satisfaz. Roberto guia- -nos. Pelé nos impele.

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