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No Verão íamos até à Nazaré

Os tempos eram outros há mais de sessenta anos e a forma com que tudo se fazia parecerá estranha à juventude de agora, mas é ainda bem retida na memória dos jovens da minha idade. Era a vida dura e difícil do pós-guerra, era o tempo dos ofícios de sapataria, de pintura de construção civil, dos latoeiros, dos ferreiros, dos barbeiros, das oficinas de reparação e pintura de automóveis, era o início das lambretas e das motorizadas, tempo das mercearias e lojas de cabedais. Era o tempo onde a rádio imperava e a escutá-la à noite se reuniam muitas famílias, para ouvir o folhetim do Tide. Era o tempo dos “companheiros da alegria” no Rádio Clube Português, onde pontificavam os inspectores Patilhas e Ventoinha. Tempo de escolas primárias no Salvador e início do ensino secundário oficial com as escolas técnicas, também ali no Salvador, onde se podiam consultar os livros autorizados, na nossa velhinha biblioteca. Eram, enfim, outros tempos, em que os pais na generalidade se esforçavam para dar aos seus filhos uma férias de pelo menos quinze dias, na praia mais próxima, a Nazaré, porque os médicos prescreviam o iodo, pois fazia bem às crianças e aos adultos. E era o desejo enorme de acabarem as aulas e depois podermos ir à praia para ali brincar e jogar, ao mesmo tempo que tentávamos aprender a nadar, pois quem tivesse medo tinha sempre o banheiro para lhe dar o banhinho da ordem, perante choros e berrarias intermináveis. Nesse tempo já existiam as senhoras dos bolos, com as suas vestes brancas e as suas caixinhas de metal, autênticas pastelarias ambulantes. É de recordar o que tal como hoje, sempre foi moda a velhinha bola de Berlim…e havia os barquilhos em latas cilíndricas em cuja tampa existia uma roleta que determinava, depois de rodar, quantas unidades sairiam a cada guloso. Estar na praia era como estar no paraíso, longe de tudo e de quase todos, porque a Nazaré no verão era um mar de torrejanos. Mas a televisão estava a iniciar-se e era quase um luxo, só havia gravadores de fita antes das cassetes. Não havia telemóveis e as comunicações eram difíceis e mesmo os transportes, para a classe média/ /baixa limitavam-se às camionetas dos Claras, que nos levavam e traziam, carregadas de toda a tralha nos tejadilhos, pois não havia porão. Estávamos na praia, mesmo longe da nossa terra, mas confesso-vos que passados sete ou oito dias na praia, já tínhamos saudades da nossa terra e mortos por cá voltar, porque não há terra mais bonita do que a nossa.

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