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Spinning…

Ótimo dia de praia: sem vizinhos nas barracas ao lado, o sol quente, a areia queima os pés, maré cheia. Lentamente, insinuando-se, vindo do bar do areal, um ruido inicialmente tímido, que vai aumentando até se tornar num arraial. O que se passa? Inicia-se uma prova com mais de duzentas pessoas que, ininterruptamente, por turnos vão pedalar durante 24 horas! O barulho agora é ensurdecedor. Alguém grita ao microfone: don´t stop, go on, you are almost at the top of the mountain… A noite foi atribulada, as férias estão acabar . Enterro a cabeça na areia e, a custo, consigo adormecer. Tenho sonhos sobressaltados: pedalo incansavelmente, mas estou parado. Acordo estremunhado dum sono aos solavancos. Há algo de estranho: adormeci com o barulho e agora fez-se silêncio . Foi a falta de ruído que me acordou, a estranha acalmia em que se ouvem apenas as gaivotas. Mas dura pouco tempo! Lá volta o microfone à guerra entre todos os desportistas e os veraneantes desejosos da calma relaxante dum dia de praia. A Voz, estridente, lancinante, imperativa, vai aumentando de tom… Aproximo-me do palco onde pedalam afanosamente os ciclistas. Pedalam sem parar, aceleram, suam, sorriem e, sobre eles, sempre a mesma Voz que os incentiva violentamente: more speed, more, do not stop…. Olho com surpresa o esforço digno de uma volta à França. Tento perceber qual a camisola amarela, o vencedor do prémio de montanha, a equipa que vai à frente. Afinal, parece que vão todos acabar simultaneamente em primeiro e último lugar porque não saem do mesmo sítio. Já que não os consegues vencer, junta-te a eles! Para o ano também concorro, mas quero que a minha bicicleta tenha campainha. Assim sempre exercito o polegar e contribuo para algazarra, sem nunca parar de spinnar, spinnando, no spinning…

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