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1920 – A Explosão Social

1920 é um ano de greves por todo o país, abrangendo inclusive o funcionalismo público e o telégrafo, considerados até então como o esteio social da república. A atitude dos governos passa da complacência à repressão. Mas a carestia de vida, a inflacção que absorve a subida dos salários, o açambarcamento de víveres que são desviados para Lisboa onde atingem preços mais caros, leva nos pequenos centros, a partir de Julho, a assaltos a lojas, como em Torres Novas, (Francisco Canais Rocha, Para a História do Movimento Operário em Torres Novas, pág. 169). A Administração refere apenas um (Cor., Lº 20, 483). O administrador do Concelho avisa o Comandante da Escola de Equitação: fora informado de que, nesse dia (16 de Julho), se repetiriam os assaltos, pedindo-lhe uma força militar (Cor., 16/7, fls. 149). Em Agosto é demitido de funcionário da administração João Pessoa de Amorim, por atitude passiva ante as manifestações de protesto populares (Cor., 23/8, 200). Tendo sido demitido superiormente o administrador, no dia seguinte (idem, 24/8, 204), assume interinamente a administração o presidente da comissão administrativa, Dr. João Martins de Azevedo.
É neste período que o padre Maya dirige O Almonda. Se não encontramos a descrição pormenorizada dos conflitos sociais locais, não deixa de se verificar que, assumindo o catolicismo social da igreja, critica o executivo camarário, protestando contra a protecção aos açambarcadores agrícolas e comercias, que aponta como os causadores das más condições de vida. Manifesta-se o jornal contra as ideias do bolchevismo, mas defende que este se não derrota pela força bruta. «A única maneira de resistir ao bolchevismo e em geral a todas as ideias dissolventes é a associação dos bons, dos puros, por maneira a produzir o amparo mútuo, o bem-estar económico, e a força da resistência às ideias do mal. Há quem trema a falar em sindicalismo. Pois nós somos abertamente sindicalistas e entendemos que o sindicalismo de todas as classes trabalhadoras é a condição sine que sum da regeneração social. […] pode lá admitir-se que uma terra como Torres Novas não tenha ainda a sua Associação Comercial e Industrial, que não haja um Sindicato das Classes operárias, que não haja uma Associação de Instrução Popular… É assim que na vizinha população das Lapas acaba da fundar-se oficialmente o Montepio Operário das Lapas, que já funcionava desde 1912, embora sem existência legal.» (O Almonda nº 42, 25/4). Se há, neste ano, reforço do catolicismo concelhio, expresso na festa de homenagem ao beato Nun’Álvares (idem, nº 49, 13/6), na eleição da direcção da Misericórdia de Torres Novas (idem, nº 50, 20/6) da criação da freguesia religiosa de Riachos (idem, nº 36, 22/2), no crescimento da acção da Juventude Católica, o jornal não abandona os interesses da população. As referências ao aparecimento dos sindicatos agrícolas, de Riachos (idem, nº 52, 11/7), do de Torres Novas (nº 53, 11/7), duma cooperativa de géneros alimentícios em Árgea (nº 55, 25/7), demonstram o seu apoio às organizações socioprofissionais. É a correspondência da administração e as actas camarárias que nos permitem avaliar o agravamento do custo de vida no concelho. Se nos primeiros meses do ano assinala o aumento dos preços dos produtos e a carência de géneros, a partir de Maio avisa, «a não existência de farinha de trigo no concelho, estando a acabar a que os padeiros possuem para fabrico do pão» (Cor. 125, Lº 1650, fls. 149), em Abril, a sua atenção vira-se para o controlo da greve dos caminhos de ferro no Entroncamento (cor. 12/4/1930, fl. 137), em Junho para a greve dos correios e telégrafos (21/6, fls. 173). Na localidade do Entroncamento, em Julho, corre contra o abandono camarário, um abaixo assinado para se transferir para o concelho da Barquinha (A. Cam., 22/7,149).
A 31 de Agosto reunira na sede da Associação dos Caixeiros, um grupo de trabalhadores, donde sai uma comissão para a constituição dum sindicato profissional, o Sindicato Misto das Classes Trabalhadoras de Torres Novas, enquanto na rua os militares patrulhavam as ruas, impedindo ajuntamentos. A 9 de setembro, o novo administrador, o notário conservador-liberal Luís de Albuquerque toma posse do cargo. É na sua direcção que a contestação social atinge o auge, que, aliás, a partir de Lisboa, se espalha pelo Ribatejo. A 15 e 16, por sua solicitação, a Escola de Equitação patrulha a vila, especialmente à noite (Cor, fls 333, 339). Temia-se as consequências da chegada, a 16, à vila, duma delegação da CGT (Id., 16/9, 339), que coincide com uma greve geral dos trabalhadores, com encerramento das fábricas, oficinas e participação dos trabalhadores rurais, concentrando-se frente à Administração, exigindo medidas contra os açambarcadores. Albuquerque promete o reaparecimento de alguns géneros, especialmente o azeite. A paralisação de 24 horas, resultante da greve, leva nesse mesmo dia, à constituição duma comissão de subsistências, constituída pelos Dr. João Martins de Azevedo, Luís de Albuquerque, o comerciante Joaquim Rodrigues Mendes, o proprietário agrícola Mário Ramos de Deus, o industrial Manuel da Costa Nery e os trabalhadores Joaquim Alexandre Inácio e Manuel da Assumpção.(Id,, 16/8, 360), a qual foi superiormente aprovada a 23, com a excepção do último, operário que se sobressaíra na luta e na criação do sindicato. O apoio da Associação dos Caixeiros, cedendo a sede, ao grupo constituinte do sindicato, que irá funcionar naquela, não é bem vista pela administração. O presidente da direcção dos caixeiros, Adelino Aguiar, é proibido, sob ameaça de encerramento da associação, da utilização das instalações por outros que não os próprios (Id., 21/9, 360). A 27, centenas de operários e povo manifestam-se na praça 5 de Outubro, quase se gerando um conflito sangrento com a GNR (Cor., 21/10, 483). A 3 de Outubro, com o pretexto de festejar a aprovação, a 13/9, do estatuto da associação dos caixeiros (que existia desde 1908), realizou-se nova sessão com a presença de sindicalistas da CGT, onde se defendeu a revolução social (Rocha, 175/179; O Almonda nº 66, 10/10). Tal comício conduziu à prisão de vários operários, entre eles Manuel da Assumpção, Manuel Marques Sepodes, Júlio da Silva Nuno, José Ferreira Saboga e José da Silva Ferreira, e à dissolução do Sindicato Misto (Cor., 13/10, 444; Rocha, 181). A agitação redobrou, com o operariado a exigir a libertação dos presos. A 11, realiza-se ainda nova e última reunião na sede dos caixeiros, donde saíram de novo vivas e incentivos à revolução social. (O Almonda, nº 67, 17/10). Com a expulsão do concelho de Manuel de Assumpçao, a 15, e o julgamento dos únicos que se mantinham presos, Manuel Sepodes e José Silva Ferreira,
20, que saem em liberdade, o protesto operário acalma. A Comissão do Abastecimento tenta parar o açambarcamento e desvio clandestino dos géneros, especialmente do azeite, mas sem grandes resultados (O Almonda nº 70, 14/1; nº 71, 21/11; nº 72, 28/11), e se irá repercutir em 1921.

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