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Os problemas sociais do pós-sidonismo 1919

A imagem documenta o interior da Fiacção e Tecidos nos dias de hoje

Durante 1919 o operariado português conseguiu vitórias importantes. Em fevereiro, a 23, surge o primeiro diário operário, A Batalha. Em Abril e Maio desencadeiam-se uma série de greves que culminaram num grande comício do 1º de Maio. O governo de Domingos Pereira (30/3/191929/6/1919), aprova, a 10 de Maio, legislação que satisfazia reivindicações operárias, sobretudo a lei das 8 horas de trabalho diário, quarenta e oito horas para os funcionários públicos, sete para os funcionários da banca e dos empregados de escritório; e a do seguro social obrigatório (Raul Rego, História da República, vol.IV,104). Realizadas eleições legislativas a 11 de Maio, ganhas pelo Partido Democrático. O novo governo do coronel Sá Cardoso (26/6/1919-15/1/1920), ante o avanço de mais greves e reivindicações, desencadeia acções repressivas, aproveitando em Junho a nova greve nas oficinas do Barreiro, colocando-se ao lado do patronato. A UON (União Operária Nacional) declara greve geral de 48 horas. O governo encerra as sedes das federações sindicais e o jornal A Batalha. Em Julho, a 2, inicia-se uma greve ferroviária nacional. O governo encerra o respectivo sindicato, coloca os militares a dirigir os comboios (Telo, António José, Decadência e Queda da I República Portuguesa,150-153). O Congresso elege, em Agosto, presidente da república,
António José de Almeida. Tomará posse a 5 de Outubro, mantendo o governo de Sá Cardoso. Em Setembro, a 13, o II Congresso Operário, transforma a UON na CGT, de predominância anarcossindicalista, o que activa a reorganização sindical. É neste período conturbado que O Almonda, surgido em finais de 1918, vê suspensa a sua publicação entre Janeiro e Junho, e sem grande capacidade de sobrevivência, passa em 14/12/1919 das mãos do grupo de jovens universitários para a posse do Dr. Alberto Dinis da Fonseca, figura pública local do catolicismo português. Necessária se torna a documentação concelhia, especialmente do Município e da Administração, para se perceber como reagiram os diversos grupos sociais concelhios às mudanças nacionais. A primeira impressão é a dança das comissões administrativas. Deposta em Março, a Comissão Sidonista, é substituída por uma segunda, republicana, que integra figuras locais dos partidos republicanos tradicionais, presidida pelo Dr. Pedro Gorjão Maia Salazar. Mas, realizadas eleições municipais, em 25 de Maio, é eleita outra, que toma posse a 16 de Junho, presidida pelo Dr. João Martins de Azevedo, composta pelos membros da antiga comissão municipal sidonista. Eleição de imediato contestada pelo presidente da Liga Republicana de Torres Novas, Dr. José Maria Dantas
de Sousa Baracho Júnior, por não contemplar as minorias legais. O protesto parece ser aceite, já que, a 24 de Julho são substituídos três vereadores republicanos, representantes da minorias. Em Agosto vemo-lo nomeado governador civil do distrito de Santarém. Observa-se, no concelho: um Executivo Municipal dirigido por uma equipa de proprietários e comerciantes, conservadora, sidonista, e uma administração, dirigida por um republicano democrata, Bernardo Cesário da Costa (Autos Posse, 24/2/1919, 40), que de imediato substitui os regedores sidonistas por democratas. Os grandes problemas concelhios mantinham-se: o abas- tecimento dos géneros, o aumento do custo de vida, os vencimentos dos funcionários e dos professores, sempre atrasados e desajustados em relação à inflacção, provocada muito pelos especuladores do comércio e agricultura, que, açambarcando os produtos, faziam subir os preços, vendendo-os clandestinamente para fora do concelho. Os sectores mais atingidos são os das classes dos funcionários, empregados, pequeno comércio artesanal, o operariado. A agitação da capital, as greves, inclusive a dos ferroviários, com grande incidência no Entroncamento, influenciam os trabalhadores, que aproveitam qualquer inciden
te para protestar. A situação local é tensa. É o caso de, a 14 de Julho, ao ser a banda da Ribeira convidada pela Comissão Executiva para actuar, preterindo a Banda Operária anteriormente convidada. Procurou esta que a da Ribeira não actuasse, o que não foi aceite. Quando, na tarde de 14, se preparava para tocar na praça 5 de Outubro, apareceu a banda da fábrica, tocando, acompanhada de grande multidão de indivíduos que, quando chegaram junto à primeira, deram-lhe morras, foras, abaixo. O administrador contactou de imediato o regente da banda da Fábrica, que lhe declarou, que, como não queria que tocassem nesse dia, o iriam fazer onde fosse determinado, mas sob prisão. Regressado junto da banda, declarou, acitando os ânimos «A banda deixa de tocar, porque o administrador proibiu». Logo a seguir, apareceram os elementos da banda da fábrica, já sem os instrumentos, e seguidos da mesma multidão, insultaram e apedrejaram a da Ribeira, pelo que esta teve de se retirar. Foram ameaçados os oficiais de diligências, o administrador. Chegada a força da escola de equitação, reduzida que era, mal continha a ordem. os distúrbios mantiveram-se, até que uma força de cavalaria veio acabar com os tumultos, sendo presos, dezenas de operários, todos identificados, nas cadeias da vila (Cor C/Gov. Civil,22/7,92); (Cor. Juiz de Direito, 20/7, 423);
(Del. proc. da República, 21/7, 425). Por sua vez, a Comissão Executiva do Dr. Azevedo aprova uma moção de apoio ao governo contra a greve ferroviária, o que origina, em consequência, que os grevistas injuriem, na estação do Entroncamento, os habitantes da vila (Cor.,30/7, fls472). O administrador pediu a demissão, sendo substituído a 11 de Setembro por Álvaro Coelho dos Santos Mineiro, da Chamusca (Autos de posse, 42v), regressando de novo a 13 de Outubro. O problema da legislação sobre o horário das oito horas, muito mal recebido pelo patronato local, só avança em Dezembro. A administração solicita ao município que cumpra a legislação que obriga à criação das comissões concelhias do horário de trabalho. Delibera esta que se oficiasse a Associação dos Caixeiros, única no concelho, para indicar o seu representante. Da sua responsabilidade, nomeia: pela classe operária e industrial, José da Silva Tavares; pela classe patronal, da indústria João Pereira do Canto; do comércio Justino Henriques de Oliveira (A. Cam., 4/12/1919,176v). Na sessão seguinte regista o nome indicado pela Associação dos Caixeiros: António Varanda. (A. Cam,18/12,178v). 1920 vai trazer, no país e no concelho, o agravamento das condições económicas e das relações sociais. antoniomario45@gmail.com

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