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Crueldade na arena

Todos os anos tinha de passar por aquela estrada velha e perigosa. Não podíamos pensar em parar para contemplar a paisagem cravada de restolho e azinheiras. Eles estavam ali. Uns deitados sonolentos, outros pastando e de vez em quando um saltava a cerca para a berma da estrada. Muitas vezes quiseram enganar-nos dizendo que era um burro preto e quando o carro abrandava verificávamos com medo que era um possante touro. Na aldeia para onde íamos ao longe viam-se manadas de touros. Contavam-se histórias reais de pessoas que iam apanhar o comboio de madrugada e não podiam passar porque uma vaca estava parada na estrada. Tinham de voltar atrás e chamar o campino. Todos sabíamos que eram touros de lide, ou seja, para irem para as arenas duma praça de touros, onde gente excitada batia palmas e gritava quando o bicho era espetado e o seu sangue escorria. Nunca gostei de touradas e só fui uma vez. Adormeci. Arrepiava-me ver o touro perder sangue dessa maneira tão violenta. Em Barrancos matam o touro no fim da tourada. Esta vila é portuguesa, pertence ao distrito de Beja e no entanto nenhum Governo fez frente a estes psicopatas taurinos. E há pouco tempo este Governo reprovou a proposta da abolição das touradas em Portugal. E porquê? Porque há muito dinheiro em jogo e pegam na antiguidade de que esta chacina é tradição. Algumas agências de viagens usam estes mórbidos espetáculos como uma atração portuguesa para o estrangeiro ir assistir. O touro de lide nasce para ser torturado e usado e quando não é morto no fim da tourada levam-no para o campo onde vive os dias que lhe restam como prémio. Isto é inacreditável. Os cavalos também são igualmente torturados para não fugirem do touro na arena.
Não compreendo porque é que alguns pais são contra a violência em animais, mas levam os filhos às touradas e rejubilam efusivamente com estas barbaridades. Nunca vou gostar de touradas, mas tenho familiares e amigos que apreciam. É claro que não vou deixar de gostar deles ou de os odiar por serem aficionados tauromáquicos. Temos de saber separar as coisas e os sentimentos para não entrarmos em conflitos permanentes. Muito mais haveria para escrever mas fico-me por aqui. No entanto existem outros espetáculos mais interessantes e nada cruéis para desfrutar com a família e amigos.

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