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O dia em José Torres Chorou

Na fotografia principal que acompanha o presente artigo vemos as longilíneas mãos do futebolista torrejano José Torres (1938-2010) coladas ao seu amargurado rosto. A dramática imagem seria captada pela objectiva do fotógrafo Eduardo Gageiro, após o termo do jogo entre o Inter de Milão e o Sport Lisboa e Benfica, no estádio de S. Siro. Circunstâncias desafortunadas ditaram a pungente explosão emocional do grande goleador torrejano: esta era a segunda final da Taça dos Campeões Europeus perdida por José Torres com a camisola do clube da Luz. Como que a prenunciar o fracasso do seu almejado sonho de ser Campeão Europeu. Coroa de louros de uma brilhante carreira de futebolista ao serviço do clube encarnado. O torrejano ilustre ainda teria uma outra oportunidade de disputar a final europeia. Mas a possibilidade de êxito de José Torres nunca estivera tão próxima como em Milão. Só um amontoado de inexplicáveis adversidades coarctaria o merecido triunfo à equipa encarnada. Da dramática final ficou para sempre o registo de uma equipa destroçada. Incapaz de lutar contra forças desconhecidas. A presente imagem do avançado torrejano é o símbolo da impotência das hostes benfiquistas contra uma maldição húngara que, pouco tempo antes, criara raízes no imaginário desportivo clubístico. Selada pelos dramáticos acontecimentos ocorridos na célebre final. Hoje são poucas as pessoas que conhecem os episódios marcantes desta final europeia que contou com a presença de José Torres. Em jeito de homenagem ao grande jogador torrejano procuremos então recordar o trágico revés vivido pelo clube encarnado, no inferno de S. Siro, em 1965: Até chegar à final da Taça dos Campeões Europeus o Sport Lisboa e Benfica apenas conheceria o amargo sabor da derrota, por 2-1, frente à poderosa equipa do Real Madrid. Mas como vencera por 5-1 no primeiro jogo, o clube da Luz chegaria às meias-finais, onde venceu a formação húngara do Vasas Gyor de Budapeste.
Esperava-o a glória de disputar a final contra o Campeão Europeu em título – o Inter de Milão. Na equipa italiana, do famoso treinador Helenio Herrera, pontificavam grandes jogadores do futebol mundial como: Alessandro Mazzola, Giacinto Fachetti, Luís Suárez Miramontes, Mário Corso, o brasileiro Jair… A esta constelação de estrelas o Sport Lisboa e Benfica contrapunha outros nomes de não somenos valor. Casos de Mário Coluna, José Augusto, Germano, José Torres, Cavém, Simões, Eusébio… O depois cognominado «Pantera Negra» ganharia nesse ano a “Bola de Ouro”. Vergonhosamente os senhores da UEFA decidiram que o local onde se disputaria o desafio seria em S. Siro. Contrariando as mais elementares regras do bom senso, que apelavam para que tão importante jogo fosse disputado em campo neutro. O desafio foi mantido pela UEFA para o dia 27 de Maio de 1965, em Milão. Antes do dia aprazado caiu sobre a cidade de Milão uma chuva diluviana. Tornando o estado do relvado de S. Siro impraticável para a prática do futebol. Só que o árbitro suíço, Gottfried Dienst, entendeu que se podia jogar. Não se compadecendo com as justificadas queixas dos portugueses (mais tarde, Eusébio confessaria que, mesmo que vivesse muitos anos, jamais esqueceria o nome do referido árbitro). Nesse memorável dia, as duas equipas entraram no charco de S. Siro para tentar disputar o importante desafio. Durante a partida a chuva não daria tréguas, tornando ainda mais difícil o estilo de jogo dos jogadores portugueses. Em condições normais, duas jogadas de Eusébio dariam em golo. Só que o estado do terreno travou as perigosas incursões ao avançado da equipa encarnada. Apesar das contrariedades, o Sport Lisboa e Benfica segurou o jogo, impondo o seu ritmo à poderosa formação italiana. Logo nos minutos iniciais Mário Coluna esbanjaria uma oportunidade de abrir o marcador. Na primeira parte, a defesa e o meio campo do Benfica, foram superiores aos do Inter de Milão. Apenas faltou ao ataque português – onde pontificavam Eusébio e o torrejano José Torres – estar num dia normal. Quase a terminar o primeiro tempo o infortúnio caiu sobre a equipa encarnada: aos 42 minutos o avançado Jair rematou de forma atabalhoada. O pontapé do brasileiro, ao serviço do Inter de Milão, saiu muito fraco. O guarda-redes Costa Pereira na intenção de colocar depressa a bola em jogo deixa passá-la entre as pernas. Um golo fortuito que causaria enorme espanto na assistência. Na gíria futebolística o guarda-redes encarnado sofreu um «frango». Mesmo assim o Benfica não baixou os braços, na tentativa de a todo o custo conseguir marcar o golo do empate, para daí relançar a sua esperança na vitória. Mas a “malapata” não queria abandonar o clube da Luz: pouco tempo depois, aos 12 minutos do segundo tempo, o guarda-redes Costa Pereira era obrigado a abandonar o terreno por lesão. Ressentindo-se do choque ocorrido antes com o jogador italiano Mazzola. Para a baliza encarnada iria o defesa Germano. Nesta altura, ainda não havia a substituição de jogadores, o que fez com que o Benfica jogasse durante 33 minutos com menos um jogador. Apesar de tudo, quem viu o desafio não se apercebia que a equipa encarnada jogava com dez jogadores. Tal era a garra dos jogadores do clube da Luz. A equipa do Inter de Milão acabaria o jogo sob um enorme sufoco. Muito por culpa da extraordinária personalidade e força anímica dos jogadores encarnados. Que perante tantas adversidades, nunca baixaram os braços. Nesse glorioso jogo apenas faltou a Eusébio e a José Torres aquela pontinha de sorte que decide desafios. No final do encontro os benfiquistas choraram amargamente pela imerecida derrota. Sendo José Torres, Cavém e Eusébio os atletas mais inconformados. Para o jogador torrejano, S. Siro, era lembrado como um dos palcos mais trágicos da sua vida de futebolista. Na pátria de Dante Alighieri (1265-1321), José Torres empreenderia a sua descida aos infernos do infortúnio.
Texto escrito com a antiga ­ortografia.

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