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O meu gato

O meu gato, de seu nome Alcion, apareceu aqui, sem nome e sem história, vindo não sei donde e acoitou-se num canto do telheiro. Suspeito que foi abandonado, posto na rua, e em vez de ficar gato vadio, um sem-abrigo, escolheu-me como dono. O espertalhão saberia que eu, como vivo sozinho, um gato até me dava jeito para mitigar a minha solidão. Agora come do bom e do melhor, dá-se ao luxo de escolher, arma-se em esquisito na selecção da ração. Quando lhe dá na mona salta a vedação, por lá anda um ou dois dias, chega a casa faminto, de pêlo lastimável, como guerreiro depois da batalha, e não dá contas a ninguém. Come, bebe, dorme ronronando o dia inteiro. Não está preocupado com a inflação, nem com o fim do mês, não paga impostos. Quer lá saber da globalização, das guerras comerciais entre potências ou do neoliberalismo que nos está a esmagar a todos. Nem futebol, nem poesia, nem metafisica. Ele é um come-e-dorme. Alcion, não penses que a vida de gato será sempre assim, olha que estas lentas tardes de modorra podem ter fim e o teu prato poderá ficar vazio. Um dia não responderei à tua voz, não passarei a mão pelo teu pelo. Ou tu, vagabundo de enluaradas noites libertinas, definitivamente ficarás por lá. Não sabes, mas as coisas têm fim. O deus dos gatos poderá escrever o teu nome no livro da eternidade. A vida não é só feita dessas miadelas ternurentas por ruas escusas ou de enroscados sonos sem fim no tapete da sala. Alcion, não sabes, mas há essa coisa, a morte que leva os gatos para o céu

e os homens.

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