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A Cruzada Nun’Álvares em Torres Novas

Sidónio Pais reata as relações com a igreja católica, com o decreto governamental de 23 de fevereiro de 1918, que alterava a lei da separação entre o Estado e a Igreja, da autoria de Afonso de Costa. O próprio, num acto conciliatório, assistiria à missa na Sé de Lisboa, a 2 de março.
Já anteriormente, a beatificação, a 2 de janeiro, de D. Nuno Álvares Pereira, anuncia uma renovação do culto católico, que vai ser aproveitado pelos sidonistas, católicos e monárquicos, para a criação duma organização de carácter tradicionalista, conservadora: a Cruzada Nun’Álvares. O seu primeiro manifesto, de Outubro de 1918, acolhia «os verdadeiros portugueses, sinceros e patriotas, sem a distinção de cores políticas e credos religiosos». Marcava no seu discurso a defesa da tradição e da história, aliada à unidade e ao respeito pela hierarquia, o que permitia a adesão de vários quadrantes ideológicos, desde o evolucionismo entusiástico de António José de Almeida, à aceitação unionista dos camachistas, aos republicanos dissidentes do partido democrático, até mais
à esquerda, aos intelectuais da Seara Nova. O factor religioso iria ser intensificado, mais tarde, principalmente a partir de 1921. A necessidade do Estado impor a ordem pública contrastava com a incapacidade dos partidos políticos de se entenderem e formarem governos estáveis e duradouros.
A agitação social urbana, a alta do custo de vida e da subida dos preços numa inflacção galopante, originando as greves e os assaltos, instabilizava a República e a tornava presa das ambições autoritárias dos grandes interesses económicos, através dos seus órgãos de informação de grande tiragem, o Século e o Diário de Notícias. O culto de Nun’Álvares aparece-nos localmente anunciado nas páginas de O Almonda no mês de Maio de 1920, a 16 de maio (nº 45). Iniciativa objectivamente católica, integrada numa visão moral da pátria e integrada num espirito de unidade concelhia entre as diversas forças políticas, onde os interesses do concelho e do bem comum se sobrepusessem aos dos partidos. O problema religioso, da primeira fase da República, já não dividia a sociedade. O Almonda, único jornal concelhio, mostra-o, semanalmente, com o anúncio dos horários das missas, das festas religiosas, da defesa do catolicismo como base socio-espiritual da sociedade portuguesa, independente do regime político. As diferenças ideológicas tinham dado lugar a um espírito de respeito e conciliação. A Cruzada Nun’Álvares, localmente, vai servir para uma melhor expansão e predomínio da mensagem católica na vida concelhia, já de si preponderante no mundo rural. Para que todos os habitantes pudessem participar nestas festas dividiu-se o programa em duas partes, a parte religiosa e a parte cívica e patriótica. A parte religiosa seria levada a efeito na última semana de maio, com uma série de conferências educativas, pelo reverendo abade d’Anta, encerrando em 30 uma missa solene na Igreja do Carmo. A parte cívica seria levada a efeito a 13 de Junho, tendo sido criada uma comissão de honra, constituída pelas seguintes individualidades: Dr. João Martins de Azevedo, presidente do Município, Dr. Mattoso Corte Real, Juiz de Direito, coronel Óscar Carmona, comandante da Escola de Equitação, Major Brusco, comandante do 7º grupo da Administração Militar, Francisco Amado, presidente da Santa Casa da Misericórdia, Padre António de Oliveira, vigário da vara, João Fernandes Tomás, subinspetor escolar, José Raimundo, presidente da direcção do Montepio. E, de facto, à grande imponência do acto religioso (nº 46, 23 de maio), associou-se, em 13 de Junho, um conjunto de acções, iniciadas pelo descerramento duma lápide na rua que fora de Serpa Pinto, discursando o republicano Dr. António Pinto. Seguiu-se o lançamento da primeira pedra do padrão dos mortos da 1º Grande Guerra, intervindo o presidente do Município. Parada militar na Escola de Equitação, seguida de uma «poule hípica» no hipódromo da Escola. Pelas 10 horas, sarau no Teatro Virgínia, dividido em três partes. Na primeira, discurso do Dr. Alberto Dinis da Fonseca, seguido de récitas, cânticos, cenas campestres. Na segunda, intervenções musicais, interpretadas por D. Elisa Reis, D. Maria Amado e D. Maria Emília Castilho, acompanhadas ao piano pela professora D. Higina Paiva Faria. Na terceira, apresentado O Sonho do Condestável, poema épico do Dr. Alberto, interpretado pelos senhores António Casimiro Serrão e Francisco Amado. (nº 50, 20 de Junho). O jornal não deixa de realçar que o êxito da festa cívica se deveu ao dinamismo do Dr. Augusto Moita de Deus, e o espectáculo, à encenação de Artur Gonçalves e a parte musical, ao padre Maya dos Santos. Se duas colectividades, o Montepio e a Misericórdia, participam na comissão da festa, refira-se que as reuniões da comissão cívica se efectuaram no Clube Torrejano e as senhoras e cavalheiros intervenientes, quer na parte religiosa, quer cívica, são figuras da elite social, sócios e habituais do mesmo clube. Cremos mesmo que a intervenção das figuras republicanas, como o dr. Pinto de Almeida ou Artur Gonçalves, se deveu às relações de convívio nessa colectividade. O facto é que ambos se encontram afastados da política activa democrática do Centro Republicano 5 de Outubro, que nos parece à margem das festas, nunca sendo citado nos artigos do semanário. Foram editados, como publicidade, dois opúsculos, um da autoria de Artur Gonçalves, sobre a vida de Nun’ Álvares, o segundo, número comemorativo, com textos de várias entidades, masculinas e femininas, civis, militares e da hierarquia da igreja, ambos impressos na tipografia de São Miguel, em 12 de Junho de 1920.

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