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Reminiscências II

Lembro-me da casa onde passei parte de minha infância: era uma simples vivenda brasileira, daquelas sem casa de banho no quarto e que, de noite escutava o barulho dos ratos andando pelas madeiras do telhado. Não me esqueço do cheiro da terra molhada daquele lugar. Pela noite, a trincar o silêncio, ouvia-se um comboio a passar, o comboio das onze horas. Havia, não muito longe da minha rua, um túnel misterioso, que entrava numa serra de mata fechada. Meus irmãos mais velhos, para me fazerem sofrer, diziam que ali morava um menino, sozinho… “Quer ver?” Eles perguntavam. E gritavam, agachados, mãos aos joelhos: “Ô, menino!” E o eco  respondia, com voz reverberada até sumir no fundo do túnel: “Ô, menino… Ô, menino… Ô, menino…” Eles corriam e eu corria também. Por ter as pernas menores, ficava para trás. O Beto ficava entre mim e o Júnior, percebendo que eu iria morrer de medo, parava e dizia: “Ele se foi Du”. Eu, nada sabia sobre ecos e ficava a imaginar um menino, como eu, sozinho e perdido na noite escura de um túnel. E não podia dormir, de tristeza e de medo. Quando completei 16 anos, entrei no seminário para padres em Montes Claros. Fui até ao final do processo. Morei em muitos conventos, muitas cidades. Hoje, homem feito, lembro-me dos meus primeiros dias de seminário. Quarto escuro, corredor vazio, janelas antigas e não obstante os trópicos, o clima era sempre frio. Demorei três semanas para desfazer a mala, esperava voltar para casa. Mas isso nunca aconteceu. Descobri que a nossa casa é a memória. Na memória, guardam- -se as coisas do passado. Vamos calmamente andando pelo jardim das Rosas e, de repente, um cheiro a pão. E a memória evoca a mãe fazendo pães na cozinha. Viajando, a paisagem que passa faz lembrar a relva onde brincava, sonhando um dia ser jogador de futebol. A memória guarda pedaços de nós, como a nossa casa, no silêncio da vigília da noite.
Durval Baranowske, diretor

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