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Um Conto Infantil sobre a Diferença

No ano de 1956 Helen Keller chegava a Lisboa. A visita a Portugal de uma das personalidades mais apaixonantes do séc. XX, não passaria despercebida à directora da revista “Os Nossos Filhos”, Maria Lúcia Namorado (1909-2000). Mulher de grandes causas, a torrejana ilustre vai dar um enorme relevo à presença entre nós da distinta convidada. Nas páginas centrais da sua revista publicaria um artigo – assinado por Lucinda Atalaia – sobre o enorme impacto provocado pela mulher-milagre em todos aqueles que tiveram o privilégio de a ver e escutar. A própria Maria Lúcia Namorado – pouco dada a aparecer nas fotografias – posaria numa foto em que surge ao lado de Helen Keller (ATALAIA, Lucinda, “Nós Vimos e Escutamos Helen Keller a Mulher-Milagre” in “Os Nossos Filhos”, vol. 7, nº 168, Maio de 1956, págs. 16-17). As palavras e os ensinamentos da extraordinária escritora e conferencista norte-americana representaram um ponto de viragem no modo como era encarada a deficiência em Portugal. Misto de indiferença e de piedade. O exemplo e a determinação de Helen Keller para ultrapassar as limitações impostas pela cegueira e surdez eram a prova inequívoca de que todo o indivíduo acometido por uma deficiência pode ser feliz e útil à sociedade. Para isso, basta a sociedade proporcionar-lhes os meios necessários para uma adequada educação. A própria Maria Lúcia Namorado envidaria, ao longo da sua vida, várias acções com o objectivo de apontar caminhos para a resolução do problema das pessoas cegas em Portugal. Nesta linha inserem-se as duas conferências realizadas pela torrejana ilustre no Clube Fenianos Portuenses em 15 de Outubro de 1956 (Mensagem de Helen Keller) e a 10 de Maio de 1963 (A fundação Sain e a Reabilitação das Pessoas Cegas em Portugal). Uma outra importante iniciativa da autora torrejana, sobre o problema da cegueira, foi dirigida ao público mais jovem. Talvez porque Maria Lúcia Namorado chegou à constatação que era nesta fase da vida que se podia alterar a forma como os cegos eram percepcionados na sociedade. Para o público infantil escreveu o belíssimo livro “A História do Pintainho Amarelo” (1966). Uma singela história de dedicação e perseverança superiormente ilustrada pela candura do traço mágico de Maria Keil (1914-2012). Este conto inscreve-se como uma das primeiras obras portuguesas em que é abordado o tema da diferença física. Neste caso a cegueira. A seriedade e delicadeza do assunto originaram a recusa do livro por parte da Comissão de Leitura da Gulbenkian. Considerando-o inapropriado para a frágil maturidade das crianças. O início do conto “A história do pintainho amarelo” começa com a descrição da inimizade entre a Galinha Vermelha e a Galinha Pedrês. De nada valia os préstimos de uma amiga, a Galinha Branquinha, para acalmar as dissensões entre as vizinhas. Ao princípio as duas aceitavam os seus conselhos. Mas, pouco tempo depois, voltavam a censurar-se uma à outra. As coisas não se alteraram até que, um dia, o Galo Pimpão as repreende, aconselhando as duas a fazerem o mesmo que a Branquinha, que é boa e paciente: a terem também uma ninhada de pintos. Desta forma não lhes restaria tempo para as questiúnculas. O facto é que o conselho do Galo Pimpão deu resultado. Chegada a Primavera as duas galinha levavam a maior parte do dia acocoradas sobre os ovos. Ao fim de três semanas saía dentro de cada um dos ovos uma vida nova, ainda que “muito cansada e encolhida”. As ninhadas de pintainhos da Vermelha e da Pedrês “cresceram e tornaram-se redondos como bolas de algodão”. As duas orgulhosas mães eram agora excelentes amigas. Ora aconteceu que um dos pintos, o Pintainho Amarelo, filho da Vermelha, demorava a sair do ninho. Preocupada a mãe perguntou-lhe o motivo da sua apatia. Através das interrogações e respostas que o Amarelinho ia dizendo, descobre com enorme aflição que o seu filho é cego. A dor abateu-se sobre a pobre mãe, incapaz de resolver tamanha desgraça. Cada um dos seus amigos tenta dar-lhe conselhos a fim de ajudar o Amarelinho a ser feliz. Passa então a ser o centro das atenções e do cuidado de todos. Mas, à medida que o tempo passava, apoderava-se do Amarelinho um maior azedume e irritação. De nada valeu à mãe da pobre criatura as excelentes ideias dos mais sábios seres das redondezas da moita onde morava. Até que intervém a Lagartixa Rabicha, dizendo ter a solução para o problema do Amarelinho. O insignificante réptil vai ensinar o Amarelinho com base no seu lema de vida “Querer é poder. Parar é morrer.” As contrariedades resolvem-se a partir da nossa vontade e determinação. É assim que pouco a pouco a Largatixa Rabicha ensina o jovem aprendiz a ganhar a auto-estima para deste forma aventurar-se no conhecimento do mundo e, mais que isso, a “torná-lo independente, capaz de ir sozinho onde lhe apetecesse, e até capaz de governar a sua vida”. Nesta última passagem encontramos uma das mensagens mais importantes da história que a autora pretendeu transmitir aos mais jovens: a pessoa cega é, antes de mais nada, um ser humano com dignidade pessoal. Com a mesma necessidade de realização profissional como qualquer outra pessoa, a quem foi dada diferentes possibilidades de escolha.

Texto escrito com a antiga ­ortografia. Vitor Antunes

Nota: O nosso leitor Augusto Moita de Deus alertou-nos para o facto de o seu ilustre avô estar votado ao ostracismo por parte da terra que tanto amou. Questiona para quando uma justa homenagem a quem deu muito a Torres Novas?! Um sentimento partilhado por todos aqueles que conhecem a obra do lídimo advogado torrejano! À merecida homenagem a Augusto Moitas de Deus (1889-1961) podíamos também juntar outras reconhecidas figuras do séc. XX torrejanas: o insigne historiador jesuíta Francisco Rodrigues (1873-1956) e o magriço José Torres (1938-2010). Sobre este último torrejano, o seleccionador do Irão, Carlos Queiroz, afirmou, há dias, que “falta fazer justiça” ao seu desempenho na função de treinador da selecção nacional, no Mundial do México (1986). Em relação ao artigo anterior, e sobre aos vários nomes porque passou a “Escola Industrial de Torres Novas” (criada pelo Decreto nº 39.700, de 18 de Junho de 1954), veja-se o livro “Memórias da Escola – 50 anos da Escola Industrial de Torres Novas”, Gráfica Almondina, Torres Nova, 2005.

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