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Estou anestesiado

Ah, grande invento é esta coisa da televisão. Parece que todos os canais combinam para me anestesiar. Horas e horas, serões inteiros, aí temos o futebol tomando conta absoluta das nossas vidas, enfim, tornando-nos felizes. Analistas, comentadores, peritos no pontapé e na finta, esmeram-se em esclarecer-me sobre a mão na bola ou a bola na mão, o cartão amarelo que devia ser vermelho, o golo anulado. Assim, posso esquecer que continuo a contribuir para tapar buracos na banca, que os combustíveis vão sempre a subir, que a democracia é privilégio de uns poucos. Quero lá saber que o meio ambiente vá sendo destruído e o Tejo, o Almonda e a Ribeira da Boa Água continuem conspurcados; a degradação do Serviço Nacional de Saúde não me diz respeito. Então aquela do Bruno de Carvalho apresentado de todos os ângulos, ouvido de todos os lados, sempre presente no ecrã, distrai-me do custo de vida, amolece-me o fim do mês. Não sei nem quero saber da dívida, não me importa o deficit ou o orçamento. Ouço vagamente dizer que morrem milhares nas águas do Mediterrâneo, mas isso é lá longe; fala-se que, algures, filhos são separados dos pais, mas não sei onde é algures; parece que há, por parte de cada vez mais dirigentes mundiais, desrespeito pelos direitos humanos, mas o que é isso? Sei, sei, com fundada esperança que faltam apenas quatro jogos para Portugal ser campeão do mundo. E continuaremos patrioticamente a vibrar. E toda a vida está entre parêntesis, resumida ao ecrã da televisão. São horas e horas de esquecimento e de anestesia. Mesmo que o coração bata mais depressa. Oh Patrício salva lá a coisa!
Eduardo Bento
Epílogo
levada

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