Home > Colaboradores > Fernando Pereira > Todos os rios entram no mar e ele não transborda

Todos os rios entram no mar e ele não transborda

Um destes dias a seguir à primeira ponte que passo quando desço à cidade, para o mercado… Uma senhora simpática, nem alta nem baixa, algumas cegonhas no rosto, olhos vivos. Entabulamos conversa! Venha ver o rio: diga-me lá o que pensa? Que quer que lhe diga é vergonhoso! Mas o que a aflige mais? A sujidade! O rio corre lá bem em baixo apertado pelas margens, à ponte chegam apenas as copas mais altas, de folhas lanceoladas de bordo serrado e os amentilhos amareladas e felpudas como a cauda da raposa, quando os salgueiros estão em flor. Um tronco grosso atravessa o rio e serve de represa a toda a casta de plásticos e a água, à superfície, parece ter lia, que não afunda, como o azeite. Dali prá frente, até ao Moinho da Cova, não se vê o leito, completamento escondido pelas ramagens, como na selva.
Deviam limpar isto! É esta uma das entradas da cidade? A montante a margem esquerda, sem árvores tinha canas. Foram todas cortadas e agora a ribanceira, alta e abrupta, está despida. Pergunto: quem acha que devia limpar isto? A Câmara! Fazer o quê? Cortar os ramos e deixar a água correr livremente. São os ramos que a incomodam mais? A mim é o lixo, todas essas embalagens vazias, de muitas formas e cores! Se não estivessem aí os ramos a água levava o lixo. É verdade, porventura a Câmara devia cortar os ramos e assim o lixo que vem vindo do mercado descia pelo rio, até ao mar. Não são os ramos que me incomodam, o que me enfurece, de cada vez que aqui passo, é ver como somos capazes de conspurcar tudo, como se não houvesse remédio, com um material que se usa uma vez e se deita fora, para ficar para sempre na natureza como uma maldição em todos os rios que entram no mar que transborda já, pelas praias, de plásticos.

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *