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Reminiscências

Antes de chegar aos sete anos de idade, numa trágica tarde de uma povoação do Norte do Brasil, às margens do Rio Jequitaí, a minha primeira dança estava marcada, mas foi bruscamente interrompida, pois a dama com a qual dançaria desapareceu. Fiquei assim sentado numa cadeira gigante com os meus pés a balançar no ar. No rosto eu tinha um bigode feito a lápis e no coração um grande vazio. Foi quando uma professora se compadeceu da minha primeira frustração amorosa e levou-me à segunda: Ela estava agarrada às grades do portão da escola. Do lado de fora, olhava com atenção para o ensaio da quadrilha (rancho), com simplicidade, pois as crianças são simples. Estava suja, tinha acabado de brincar com terra. Talvez a sua primeira cozinha de barro. A professora abriu o portão, pegou-a pelas mãozinhas e trouxe-a e disse-me: “ela é o seu par”. Meu irmão mais velho, o músico Beto Montes Claros, olhou-a com severidade e decidido bradou: “ele não vai dançar com ela. Ela está suja”. E eu concordei. Pouco menos de vinte quatro horas depois fui excluído dos ensaios por não ter par. E foi quando ela apareceu. Estava de vestido limpo, perfumada, cabelos bem penteados, com uma rosa a prendê-los. Era uma princesa. Ela não me disse palavras, mas quando toquei as suas mãos, não mais as soltei. Estava linda. Por ser pouco menor que eu abri-lhe os caminhos e suspirava ao fitar os seus olhos negros. Ao final do ensaio, o último ensaio, vivi o meu primeiro amor. Chegou o dia da apresentação da quadrilha (rancho). Eu estava lá, como um noivo deve estar: aprumado, nervoso, adiantado. Mas ela não foi. Aprendi mais tarde, que há momentos mágicos em que se têm visões de pessoas do passado porque estamos a perder o futuro. Então para compreender melhor o nosso coração cansado, nesta vida vulgar, precisamos, assim, de recordar o primeiro amor. Que sempre nos conduz aos secretos caminhos do coração. O facto é que jamais me arrependi dos caminhos que trilhei, das escolhas que fiz. Mas devo confessar que, de todos os encontros, aquele que mais claramente me integrou foi também aquele a que chamo do meu primeiro amor. Do qual nunca esqueci, nem deixei de sonhar. E apesar disso, nunca mais a vi e nem sequer consegui descobrir o seu nome.
Durval Baranowske, diretor

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