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A primeira homenagem torrejana a Artur Gonçalves

No corrente ano comemoram-se duas efemérides em torno do torrejano ilustre Artur Gonçalves (1868-1938) – uma relativa aos cento e cinquenta anos do seu nascimento (a 2 de Dezembro de 1868), e a outra aos oitenta anos da sua morte (a 11 de Agosto de 1938). Seria redundante traçar no presente artigo a trajectória biográfica e cultural de Artur Gonçalves, dado o facto de o ilustre historiador ser uma figura bastante conhecida da terra que o adoptou entre os seus filhos queridos. O nosso propósito é bem mais simples. Passa por relembrar a enorme dívida que os torrejanos têm para com Artur Gonçalves. E simultaneamente desafiá-los a prestarem-lhe a devida homenagem pública. Na altura em que decorrem as duas importantes efemérides. Seria uma justa evocação ao Homem que nos deixou um enorme legado histórico e cultural. Pedras basilares na afirmação da identidade torrejana no panorama nacional. Se o repto cair em saco roto, esta não será a primeira vez que o desejado tributo passa ao lado das cogitações da edilidade torrejana. Basta lembrar que após a morte do ilustre historiador foi preciso esperar quase duas décadas para que se efectuasse o devido reconhecimento público à memória de Artur Gonçalves. Só possível pela benemérita acção de quatro torrejanos ilustres. Pormenores acerca desta relevante iniciativa encontram-se descritos na correspondência inédita entre Augusto Moita de Deus (1889-1961) e José Lopes dos Santos (1889-1972) que passamos a divulgar: A ideia de homenagear Artur Gonçalves partiria do ilustre advogado torrejano que se encontrava, há muito, deslocado
da sua terra natal. Em Sintra, a 11 de Fevereiro de 1951, Moita de Deus escrevia a José Lopes dos Santos alertando-o para o facto de “Torres Novas [ter] para com a memória de Artur Gonçalves uma dívida que [era] tempo de ir preparando”. Segundo o torrejano ilustre chegara a hora de se constituir de uma Comissão para levar a bom termo a iniciativa. Comissão que na sua ideia devia ser composta por três responsáveis: José Lopes dos Santos, Manuel Pinho (1900-1962) e o Padre José Maya dos Santos (1884-1957). Estava-lhes destinada a tarefa de empreender os passos necessários para a concretização da justa homenagem a Artur Gonçalves. Apesar da distância, Augusto Moita de Deus não deixou de dar indicações para o sucesso do ambicionado projecto. De Sintra, chegariam algumas importantes medidas que a referida comissão deveria tomar. Como a divulgação do seu intento na comunicação social, a constituição de uma “Comissão de Honra” e de uma “Comissão Executiva”. Também Moita de Deus alertaria os seus correligionários para a premente necessidade de envolver a instituição camarária, presidida pelo Dr. António Alves Vieira (1913-1985), na homenagem a Artur Gonçalves (carta de 23 de Fevereiro de 1951). A tarefa dos distintos cidadãos torrejanos não seria fácil. O entusiasmo inicial esbarraria com alguns impedimentos que se reflectiram num pronunciado atraso do empreendimento. Ao fim três anos o sonho da homenagem tornava-se realidade. Conseguindo os promotores que a Câmara atribuísse o nome de Artur Gonçalves a uma rua principal da então vila (4 de Agosto de 1954). Àquela que antes arvorara briosamente os nomes de Gago Coutinho-Sacadura Cabral (18 de Dezembro de 1924) e do torrejano Gil Pais (9 de Maio de 1935). O acto de descerramento da placa toponímica ficaria programado para o dia 11 de Agosto. No décimo sexto ano após a morte do torrejano ilustre. A 7 de Agosto o jornal “O Almonda”, na sua primeira página, antecipava com
estas palavras os pontos altos da projectada cerimónia de homenagem a Artur Gonçalves: “A 11 de Agosto de 1938 morre Artur Gonçalves, Ilustre Investigador da História de Torres Novas. Torres Novas muito lhe ficou devendo e até o País (…). Por isso, a Câmara Municipal tem uma grande dívida até hoje em aberto, para quem, não sendo torrejano fez tanto pela sua terra adoptiva. Vindo ao encontro da Câmara Municipal, o Dr. Moita de Deus sugeriu que Torres Novas lhe prestasse a sua homenagem e gratidão no aniversário da sua morte (…). Pelas 19 horas e trinta minutos desse dia [11 de Agosto] será descerrada no prédio em que viveu Artur Gonçalves, uma lápida que fique a atestar às gerações futuras, não só o muito apreço em que foi tido, mas ainda, o magnífico trabalho notável sério e honrado. Igualmente será dado o nome de Artur Gonçalves à Rua que liga o Largo do Coronel António Maria Baptista ao Largo do Paço.” (“O Almonda”, Ano XXX-VI, nº 1831, 7 de Agosto de 1954, pág. 1). Nesse dia a cerimónia contou com a presença de muitos torrejanos que assistiram ao descerrar da placa toponímica com o nome do distinto historiador. Também na casa onde viveu Artur Gonçalves procedeu-se ao descerramento da lápide oferecida por Augusto Moita de Deus. No final o Dr. Alves Vieira (presente nas duas fotos) discursaria sobre a vida e a obra do ilustre homenageado. As celebrações à memória de Artur Gonçalves não ficariam por aqui. Em reunião camarária foi deliberado instituir um prémio denominado “Artur Gonçalves” para ser atribuído, anualmente, ao melhor aluno da então Escola Industrial de Torres Novas (a actual Escola Maria Lamas). No ano em que decorrem as duas efemérides relativas a Artur Gonçalves saibamos também, em conformidade com o exemplo dos beneméritos torrejanos ilustres, dignificar a “memória de alguém que soube com rara proficiência honrar e elevar a terra onde viveu uma parte da sua vida e à qual se entregou em absoluto”.

Texto escrito com a antiga ortografia

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