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Um medieval na feira de época

Quantas feiras de época desconhecidas! E ainda pouco se descobriu, havendo ainda tantas para se descobrir! Sinto-me como um náufrago que, tendo entrado pelo oceano do tempo, ao avistar uma ilha e depois mais mil, quisesse visitá-las todas. Não me canso de ir às feiras de época. E por quatro coroas de réis entrei na vila do Castelo de Torres Novas. Deixo aqui minhas impressões medievais… Li, num pergaminho da Feira de Torres Novas estas palavras: “Esta Feira de Época é mais uma recriação histórica do que uma crítica das injustiças sociais”. Ah! Milorde Diogo Fernandes de Almeida se ouvisse esse comentário haveria de perguntar: “Onde fostes aprender semelhante tolice? O que é então a Feira de Época, senão uma crítica radical da desigualdade social das sociedades de ontem e de hoje?”. Ora, esta Feira de Torres Novas, no contexto em que foi encenada, no papel de cada personagem, mais que um tratado sobre o ser humano medieval é uma pintura adaptada do ser humano do presente. Mas, para aqueles que não conhecem a história e a atualidade esta feira foi mesmo medieval. A Feira de Torres Novas rebentou com enormes comentários, quando apresentou o físico, mestre António, como tema. Fora as brilhantes atuações cénicas, percebe-se nas entrelinhas da adaptação, fragmentos do edifício de uma irónica crítica ao sistema de saúde do médio Tejo. Contudo, o fidalgo Ferreira e seus alcaides, não seguiram o raciocínio medieval e deixaram adaptar ao modo torrejano, as falas e o ambiente da Feira; o que resultou numa espontânea crítica social, da saúde e da poluição do burgo. A Feira de Época de Torres Novas já é clássica, tem os traços singulares do povo que vive por cá e o seu inegável regionalismo. Em nada se parece com os espetáculos de recriação de Évora de 1450, embora os géneros artísticos tenham as mesmas fontes e inspirações. É evidente que no texto desta Feira, o problema maior não é Deus, não é o bem moral, não é o destino. O problema aqui é a misericórdia; representada na figura de uma celebridade da terra, um físico áugure, que não representa somente, – senão no imaginário estrangeiro, – um personagem, – representa a contingência, a esperança, a fé num socorro último, a extrema humanidade em sofrimento e a transcendência da história para a sociologia. E assim, por causa desta Feira de Época, a infância do turismo desta gente casou com a sua melhor arte, o teatro de rua. E foi espetacular! Durval Baranowske, diretor

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