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O Almonda e a direcção do padre Maya

Começa uma segunda fase do semanário O Almonda, sob a direcção do Padre Maya dos Santos, tendo como editor e administrador Francisco Maia dos Santos. A tipografia, na praça 5 de Outubro, adquirida pelo notário e membro da Acção Católica, Dr. Alberto Dinis da Fonseca, registada com o nome de Tipografia S. Miguel. Publicado aos domingos, dirigi-lo-á de 14/12/1919 (nº26) a 12/6/1921 (nº 99). A diretriz assumida explica-a no seu editorial de apresentação, Continuando: «Nunca fomos políticos, nunca o seremos… e por isso… a porca da política como a definiu bizarramente o nosso querido artista Bordalo Pinheiro nunca nos entrará em
casa». «Por Torres Novas será a nossa divisa». De facto, observando a trajectória dos 73 números publicados, verifica- -se que se orienta pela defesa dos interesses das populações concelhias, em especial do meio urbano, sendo habitual, nos editoriais, nas secções do próprio director, Cartas para Longe onde assina Modesto (nº22,4/1/1920), Reparos, uma crítica muito dura à Comissão Municipal, que considera inoperante, incapaz, e no seu estilo cáustico, define o concelho «como uma terra onde os verea- dores dos últimos vinte anos, precisavam ser todos… enforcados!» Denuncia os principais problemas da vila, a limpeza, a escassez da água, a deficiente iluminação, a incapacidade autárquica de investimento, quando tinha 23 contos na Caixa Económica (nº53,11/7/1920), a proliferação de doenças epidemiológicas, o sarampo, a variola, verbera pela falta de controlo municipal das estrumeiras e pocilgas, «Torres Novas é uma imensa pocilga, onde nos revolvemos em estrume!», dando como exemplo a famosa PIPA, a carroça que circulava pela vila recolhendo os dejectos, conspurcando o ar de forma intolerável (nº61, 5/9/1920), o que o leva à defesa urgente da instalação dum colector. Tais denúncias não caem bem na Comissão Municipal, que eleita em 25 de Maio, a 29/10/1919 sofre nova reorganização, ficando assim constituída: maioria liberal : Dr. João Martins de Azevedo, padre Joa- quim da Silva Alberto, José Brites Moita e José Antunes Barroso; minoria democrática, Joaquim Rodrigues Mendes, António Puga e António Baptista de Oliveira. A política do Padre Maya, no jornal, ainda que de raiz católica, não deixa de ser republicana, ainda que apartidária, imbuída do espírito da encíclica do papa Bento XV, que tendo reatado as relações diplomáticas com a república portuguesa, incita os católicos «a obedecer ao poder civil, como ele se acha agora constituído, e aceitem sem repugnância os cargos públicos a que sejam chamados ou lhe sejam oferecidos, porque assim o exige o bem da Religião e da Pátria» – Encíclica aos Bispos Portugueses»,(nº36,22/2/1920). Toda a sua direcção é orientada na liberdade do culto religio- so, na actividade da juventude católica torrejana a favor dos desprotegidos, na acção das colectividades a favor de actividades culturais (em que ele se envolve directamente) para angariar fundos para o Hospital da Misericórdia. O jornal e o próprio apoiam, dentro da renovação do Centro Católico, a partir do seu congresso dos finais de 1919, as festas em honra do beato Nun’Álvares Pereira, que uma comissão de honra programa para Junho de 1920 (nº 49,13/6, O Dia de Nun’Álvares em Torres Novas). Dentre as actividades, da missa pública no convento do Carmo, destacam-se nas actividades culturais, Artur Gonçalves, que publica uma biografia editada pela tipografia S. Miguel, Dr. Alberto Dinis da Fonseca, com um texto O Sonho de Nun´Álvares, representado por jovens da Juventude Católica, Dr. António Pinto de Magalhães e Almeida, no discurso histórico, Padre Maya dos Santos, na regência orquestral. A situação económica agrava-se, desaparece o numerário, usam-se cédulas, como as editadas pela Misericórdia de 1 e 2 centavos, para os trocos e compras miúdas (nº 56, 1/8), a fome ataca as classes operá- rias que se revoltam e assaltam lojas comerciais (nº 57,18/8). O jornal, mesmo denunciando essas situações, não deixa de acusar os açambarcadores como os culpados da falta dos géneros, do aumento dos preços, como o do pão, ou do roubo no seu peso (nº69,7/11). Defende a criação dos sindicatos, das cooperativas de consumo (nº 72, 28/11), das comissões de abastecimentos para defesa do consumo local (nº64, 26/7). O próprio jornal sofre com o aumento do preço do papel. Como não quer aumentar o valor da assinatura, nem o do O Almonda e a direcção do padre Maya número avulso, reduz, a partir de janeiro de 1921, o tamanho e aspecto gráfico do jornal, diminuindo-o e publicando-o a três colunas. Continua, até ao último nº da sua direcção a fustigar o executivo camarário, de forma irónica: «haverá 3 eclipses, visíveis durante todo o ano. Eclipse da iluminação pública, eclipse da água nos fontanários e eclipse total… das obras camarárias» (nº 77,2/1/1921). A colaboração não é vasta, sendo de relevar a de Artur Gonçalves, com os seus estudos sobre Torrejanos Ilustres e Mosaico Torrejano, trabalhos que enriquecem o periódico e para os quais chama a atenção camarária para a sua publicação. Solicita também a colaboração feminina, na defesa do papel da mulher na sociedade, publicando textos literários de colaboradoras, donde ressalta a de Lídia Gonçalves, professora, que se destaca, principalmente, com As Mulheres nas Letras (nºs 80 e 81,/30/1 e 6/2/1921). A saída do Padre Maya da direcção do jornal resulta, para nós, do grau de independência e espírito critico manifesto de forma emotiva, que não agradava, nem ao poder, nem à linha conservadora católica, que o irá substituir.

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