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O Início do Futebol Moderno em Torres Novas

A Joaquim Canais Rocha

No mês de Maio de 1887, a Câmara torrejana atribuía a D. Alexandre Saldanha da Gama 25.510 réis pelo estudo do ramal da estrada municipal do jogo da bola às Tufeiras (SANTOS, António Mário Lopes dos; “Anais do Município de Torres Novas (1850-1910)”, Município de Torres Novas, 2017, pág. 309). Esta referência historicamente datada a um local (ainda hoje mantém o mesmo topónimo), onde era frequente praticar-se o denominado desporto-rei (julgamos que de forma primária), vai ao encontro da nossa tese sobre o facto de os desafios de futebol já estarem enraizados nas actividades desportivas de alguns jovens e adultos torrejanos, desde o último quartel do século XIX. Muito anos antes da suposta “primeira divulgação prática do futebol” entre nós, a 15 de Abril de 1909 (LOPES, João Carlos, “Cem Anos de Futebol em Torres Novas“, 2009). A proximidade do então recinto futebolístico das fábricas torrejanas sugere que o jogo da bola fazia parte das ocupações lúdicas em que se entretinham os operários e os seus filhos. Talvez em resultado da influência dos militares e civis estrangeiros, presentes na vila torrejana em vários momentos da nossa História. As primeiras manifestações do jogo de futebol, em Torres Novas, podem estar a eles ligadas. Mas seria insustentável defender que os moldes como eram disputados os jogos da bola, em Torres Novas, no referido ano de 1887, estavam de acordo com as catorze regras propostas pelo inglês Ebenezer Cobb Morley (1831-1924). Os seus efeitos pacificadores e civilizacionais teriam que esperar mais algum tempo. Até porque aquela que é considerada a primeira exibição do futebol moderno em Portugal, data de 1888. Promovida num domingo do mês de Outubro, na vila de Cascais, por iniciativa de Guilherme Pinto Basto. Considerado, por alguns, como o introdutor do futebol em Portugal. No célebre jogo participou o torrejano Salvador Correia de Sá e Benevides Velasco da Câmara (1873-1939). Que, a exemplo de outras figuras da nobreza, se encontrava na estância balnear de Cascais com a Corte portuguesa. O entusiasmo provocado pela “nova” modalidade na numerosa assistência funcionaria como estímulo para que, cerca de três meses depois, se efectuasse uma segunda exibição num terreno do Campo Pequeno, em Lisboa (SOUSA. Manuel de; “As Origens do Futebol”, Oro Faber, Mem Martins, 2004, pág. 167).
A partir desta altura estava dado o primeiro passo para a disseminação da prática do futebol moderno em Portugal continental. O próprio rei D. Carlos I (que estaria por diversas vezes na vila torrejana) chegou a apadrinhar um encontro de futebol entre as equipas de Lisboa e do Porto (Taça d’el Rei). O jogo seria efectuado a 2 de Março de 1894. No ano das Comemorações Oficiais do V Centenário do Nascimento do Infante D. Henrique. Não foi preciso esperar mais algum tempo para que o Povo aderisse à nova modalidade. A sua expansão data da última década do século XIX, atravessando o século XX com as enormes proporções que hoje em dia conhecemos. Também nesse período surgiu, a 22 de Janeiro de 1894, o primeiro jornal desportivo português – “O Sport”. Que logo no seu primeiro número abordaria o tema do futebol e os enormes benefícios que acarretava a sua prática. Esta importante mensagem não deixou indiferente os múltiplos promotores da actividade desportiva (a própria Casa Pia de Lisboa desempenhará um papel crucial na difusão da modalidade). Sendo expectável que antes do século XX se realizassem, em Torres Novas, jogos de futebol consentâneos com as regras propostas
por Ebenezer Cobb Morley, a 1 de Dezembro de 1863. A presença na Escola Prática de Cavalaria (1902) de soldados oriundos de outros locais do país contribuiria para o alargamento da prática do futebol entre os torrejanos. Quando no “Jornal Torrejano” do dia 29 de Abril de 1909 (e não a 27 de Abril, como é referido por João Carlos Lopes no livro “Cem Anos de Futebol em Torres Novas”, págs. 14-15) é publicada a notícia sobre o encontro de futebol realizado a 15 de Abril, a modalidade já era conhecida e praticada em Torres Novas. Só que os desportos, principalmente o futebol (reflexo do “Ultimatum” e da sua pouca importância em termos jornalísticos), não despertavam a mínima atenção à imprensa torrejana. Mais vocacionada para outro tipo de assuntos. O facto de nesse dia os holofotes da imprensa local incidirem sobre o encontro deve-se ao elevado número de ilustres participantes torrejanos. Pertencentes a famílias com enorme peso no comércio e nas finanças de Torres Novas. Alguns deles alcançariam um papel de relevo na imprensa escrita. Como foi o caso do juiz de campo Augusto Moita de Deus (1889-1961). No texto da notícia o jornalista descreve o encontro com natural familiaridade (“Jornal Torrejano”, ano 24, nº 1281, Torres Novas, 29 de Abril de 1909, pág. 2). Não havendo qualquer alusão a estarmos perante a primeira exibição do futebol em Torres Novas. Isto porque as partidas de futebol já aconteciam com alguma regularidade nas imediações da rua do “Jogo da Bola” e também no “Rossio do Carmo”. Perto das instalações da Escola Prática de Cavalaria. A única surpresa e o motivo que levou o encontro a ser notícia, num artigo da imprensa local, residiram no envolvimento da intitulada fina flor da burguesia. É dentro desse diapasão que o jornalista escreve o artigo, ao enunciar a lista de figuras distintas torrejanas presentes no encontro. Negligenciando os aspectos técnicos e descritivos ligados ao jogo. Ver o estudante Augusto Moita de Deus como o introdutor do futebol em Torres Novas é um erro! A via erudita de Coimbra chegaria muito depois da via lisboeta ou da via militar (até mesmo da via inglesa). E o jogo realizado no dia 15 de Abril de 1909, ao contrário daquele em que participou o torrejano Salvador Asseca, na estância balnear de Cascais, não teve a pretensão de exibir, pela primeira vez, o futebol moderno. Por esta e por outras imprecisões, o capítulo “ Torres Novas, 1909: o primeiro jogo de futebol”, inserido nas primeiras páginas do livro “ Cem anos de Futebol em Torres Novas”, na nossa humilde perspectiva, não passa de um mero exercício criativo, enredado num vertiginoso manancial de especulações e fantasias. Pouco consentâneo com uma rigorosa análise arqueológica sobre as raízes históricas do futebol moderno, em Torres Novas.
Texto escrito com a antiga ortografia

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