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KM71

À saída da Golegã para a Azinhaga. A fauna do costume. Pela expoégua. Do lado de lá da estrada, no estacionamento encostado ao milho, à sombra grande dos plátanos: um acampamento de ciganos. Picadeiro improvisado, alguns cavalos, um cavaleiro, raparigas de longos cabelos negros. A seguir ao museu da fotografia quando se desce em direção à alverca. Entro. Encosto-me ao balcão. Há uma estranha agitação no ar. Todos fixam o olhar no acampamento dos ciganos. É uma foice que ele tem na mão, está a matar a cobra? Reparo melhor: um rapaz dá foicinhadas na erva, outros observam parados. É já tarde para intervir, o bicho está condenado. Assisto à matança, que acontece num ápice em quatro ou cinco movimentos rápidos. A cobra é apanhada do chão já inanimada. Tem mais de meio metro. Ele ergue o seu troféu, passa a estrada e vai deitar um bicho numa seara, com desprezo. Apetece-me ir ver a cobra para saber a espécie: rateira, de escada, de ferradura, bordalesa, de água? Vem agora em direção ao café, orgulhoso por ter feito a boa ação do dia, à vista de toda a gente. Levanto-me. Vou ao seu encontro. Tem para vinte e poucos, os traços característicos da sua gente: cara queimada pelo sol, olhar de desafio de quem passou muitas noites sob o céu estrelado, pele morena. Digo-lhe de chofre: só tenho pena da cobra! Olha-me surpreso. Aproximo-me mais, insisto: sabe o que diz a bíblia sobre a cobra. Sei! Pois devíamos estar agradecidos senão nós ainda andávamos nus no paraíso sem termos consciência de nós mesmos, como os bichos? Não sei se me percebeu, mas atalho logo a conversa! Levou-me a mal ser sincero? Não! Perguntei-lhe o nome, disse-lhe o meu, apertei-lhe a mão. Foi ali quando se passa a igreja manuelina, onde se lê a frase, já muito apagada pelas mordeduras do tempo, memória sou de quem a mim me fez. Naquele café onde se reúnem ciganos, lavradores, pastores, caçadores, pescadores, e outros mentirosos, como eu, que respeito e admiro, creio que se chama KM71.

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