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A primeira fase do Semanário O Almonda

A publicação de O Almonda, já na fase final do Sidonismo, com a gripe pneumónica grassando com invulgar intensidade, a ameaça das greves operárias provocadas pelas piores condi- ções de vida, devido à subida dos preços e à diminuição dos salários, o fim da 1ª Guerra Mundial, festejada pelos republica- nos e populares nas ruas da vila, origina uma série de questões sobre os motivos do seu aparecimento a um domingo, 24 de Novembro de 1918. Rodri- gues Bicho inclinava-se para a influência da Juventude Cató- lica no seu aparecimento  (A Igreja em Torres Novas no Século XX, págs. 373 e segs.). Outra é a opinião de Artur Gonçalves, colaborador do jornal, contemporâneo dos seus fundadores. No Mosaico Torrejano (pág. 200), di-lo «fundado e dirigido por um grupo de estudantes, rapazes cheios de boa vontade e entusiasmo, mas incapazes de lutar contra a má vontade de uns poucos e a indiferença de muitos». De facto, dos elementos responsáveis que o publicam e promovem, António Manuel da Cunha Ferreira, director, Pedro Augusto Martins redactor principal, José Antunes da Silva Júnior administrador, Alexandre (Manuel) Queirós Alva, editor e Joaquim Vassalo Mendes, secretário da redacção, só o penúltimo nos aparece associado à Juventude Católica, fazendo parte da mesa da assembleia geral eleita em 29 de Março de 1922 (O Almonda nº 142, 9 de Abril). Pensamos que por detrás do entusiasmo da juventude fundadora do periódico, estão os familiares do director e do administrador, José Manuel Ferreira, industrial, comerciante, capitalista e José Antunes da Silva, republicano democrático, comerciante, que com o primeiro, criara uma sociedade intitulada Ferreira & Antunes, dedicada ao comércio por grosso. Não será, já que os principais responsáveis são jovens, e alguns irão ingressar nesse mesmo ano na vida universitária, sem vida profissional definida que a base económica seja proveniente do apoio familiar? O Almonda, nesta sua fase inicial, que vai até ao nº 25, 7/12/1919, demonstra ser fruto duma juventude que deseja cortar com um passado partidário altamente convulsivo, assentando os seus princípios basilares na defesa dos interesses socioeconómicos e divulgação cultural concelhios. Só que as boas intenções e o entusiasmo juvenil não chegam. Saindo aos domingos, vai confrontar-se de imediato com o assassinato de Sidónio Pais, a que não dá grande relevo e só coloca o tema na primeira página a 23 de Dezembro, após ter sofrido críticas por o não ter feito anteriormente. Tal situação resulta da ausência do director, que partira para Lisboa, a cursar medicina na universidade, em Novembro (O Almonda nº 3, de 8/12), e do administrador, para Coimbra (O Almonda nº 4, 15/12). Regressados por férias, justificam o erro, com a condenação do crime na primeira página, como abrem uma subscrição para um monumento a Sidónio, mas que não teve qualquer êxito. A partir do nº 6 (23/12) Manuel Simões Pinho, inicia a sua carreira como colaborador. A situação nacional, com a criação da monarquia do Norte, Monsanto, a revolta republicana derrotada de Santarém, o novo Presidente da República,
o governo de Tamagnini Barbosa, são-lhe totalmente alheios. A regra número um foi afastar a política nacional e internacional das suas páginas. Distingue-se a colaboração histórica de Artur Gonçalves. Daí que o semanário vá singrando com dificuldade nos finais de 1918, e veja impos- sibilitada a sua publicação,
devido ao encerramento da ti- pografia existente na praça 5 de Outubro (fora pertença do capi- tão Hintze Ribeiro Nunes, comandante da escola de equitação até Dezembro de 1917). Anuncia-o a 5/1/1919 (O Almonda nº 7), mas sem qualquer informação sobre as causas do seu encerramento. Mas no mesmo exemplar, informa do regresso às respectivas universidades do director e do administrador. Suspensão que se mantém até 10/8/1919. Na política municipal, nos meses seguintes, deram-se profundas transformações. Derro- tada a Monarquia do Norte (19/1-13/2/1919), caíra a comis- são administrativa sidonista, substituída por uma comissão de unidade republicana (A. Cam., 8/3), realizaram-se eleições municipais, que levam a instalação da nova câmara municipal, maioritariamente de feição conservadora (A.C., 16/6). Só volta a ser publicado, depois do regresso, por férias, dos responsáveis, saindo o nº 8 em 10 de Agosto, a redacção e a administração sita na Avenida Carlos Reis e a composição e impressão na rua Mousinho de Albuquerque. A partir do nº 19 (24/8), Simões Pinho passa a redactor principal, iniciando uma actuação jornalística empenhada nos problemas locais, como a falta de água (nº 11, 31/8), as posturas municipais (nº 12, 7/9), criando uma secção Garatujas da minha agenda, onde critica a pouca eficiência autárquica. (nº 16, 5/10). O jornal, que assenta então sob a sua quase hegemónica colaboração e a de Artur Gonçalves, vai sofrer novo golpe, com a saída para Lisboa do redactor, também para os estudos superiores. Ante tal abandono, António Manuel Cunha Ferreira toma e si os cargos do jornal (nº 20, 3/11) e no nº 24(30/11) informa que O Almonda vai deixar de se publicar. É então que intervém o
Dr. Alberto Dinis da Fonseca, que, na sequência do Congresso do Centro Católico Português, realizado em Lisboa a 22/11, toma conta da tipografia na Praça 5 de Outubro, que passa a chamar-se S. Miguel, e, não sabemos se por compra, se por simples mudança de gestão, toma posse do semanário, que terminará a sua primeira fase no nº 25, a 7/12/1919.

antoniomario45@gmil.com

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