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A última morada terrena de Gago Coutinho

Nesta invulgar fotografia, tirada junto a uma campa, vemos um homem idoso, de rosto fechado, que se encontra no cemitério a venerar os seus entes queridos. O seu olhar cabisbaixo vai na direcção das palavras inscritas na coluna, onde sobressai o nome de D. Maria Augusta Pereira, falecida no remoto dia 11 de Maio de 1913. O túmulo fora erguido pelos seus filhos adoptivos. Mais abaixo, na parte rasa do jazigo, encontra-se um outro nome. Este bem conhecido da generalidade dos portugueses. É o do ilustre almirante Gago Coutinho (1869-1959), que com Sacadura Cabral efectuaria a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, no hidroavião Lusitânia,
em 1922. Um feito extraordinário! Gravado a letras de ouro na história da aviação mundial. Nesse ano as homenagens aos arrojados marinheiros estenderam-se por todo o país. Incluindo a vila torrejana. Tendo a Câmara Municipal, na sua primeira sessão plenária, concedido o título de cidadãos de Torres Novas aos dois heróicos aviadores (GONÇALVES, Artur; “Anais Torrejanos”, Torres Novas, 1939, págs. 171-173). As homenagens prestadas pela edilidade não ficariam por aqui. Em anos posteriores a mesma Câmara atribuiria os nomes dos ilustres aviadores a uma rua da então vila (deliberação camarária efectuada a 18 de Dezembro de 1924). Àquela que hoje serve o nome do torrejano ilustre Artur Gonçalves. Em 1934 seria efectuada uma nova homenagem aos aviadores, através da atribuição dos seus nomes à principal avenida da cidade (deliberação da Câmara a 16 de Março de 1934). Hoje denominada Dr. João Martins de Azevedo. Mas se quisermos encontrar elementos que ligam Gago Coutinho a Torres Novas temos que recuar alguns anos antes. Na altura em que o velho geógrafo calcorreava o território africano na sua arriscada missão geodésica. Foi numa dessas campanhas de reconhecimento do território colonial, em Março de 1914, que Gago Coutinho trabalhou com o torrejano ilustre Gustavo Bivar Pinto Lopes. Episódio já aflorado por nós no artigo “ Um Herói Torrejano”, escrito no jornal “O Almonda”, do mês de Setembro de 2012. Após esta breve incursão, onde tecemos algumas afinidades electivas que unem o distinto oficial da marinha a Torres Novas, voltemos novamente o nosso olhar sobre fotografia: se repararmos com maior acuidade no rosto do idoso, vemos, com enorme espanto, tratar-se do próprio Gago Coutinho. A fotografia (talvez inédita!) não é uma montagem! O facto de estar inscrita na pedra tumular o seu nome é uma circunstância referenciada pelo testemunho do próprio ilustre marinheiro e das pessoas do seu tempo. No extremo da fotografia podemos observar a data de nascimento do almirante: 1869. Propositadamente o ano do seu falecimento não aparece. Sabemos que na inscrição, colocada por Gago Coutinho, estava (195…). Encontrando-se em falta o último número. Curioso é a certeira projecção do eminente cartógrafo da década em findaria a sua vida. O velho marinheiro sempre acalentou a ideia de que não chegaria aos anos sessenta do século vinte. Já o intento de festejar os 90 anos, no Rio de Janeiro, não se realizaria. Como era seu desejo. Outro pormenor da foto é o facto de na epígrafe da sepultura estar escrito “Geógrafo”. Termo raras vezes associado ao seu nome. O frequente é tratá-lo por Almirante. O velho marinheiro justificaria a escolha da profissão de geógrafo reiterando por diversas vezes que era esse o seu principal ofício. Como Almirante nada fizera. Por esse motivo Gago Coutinho mandou esculpir na laje a função porque queria ser lembrado. Na fotografia o olhar consternado do velho marinheiro não evoca apenas a velha senhora que o criou após a morte da mãe. E que ao emitir o último suspiro pronunciara ao então homem de meia-idade estas comoventes palavras “meu rico menino”. No jazigo nº 379, do Cemitério da Ajuda, também estavam sepultados o seu velho pai – ausente durante largos períodos da sua vida – e a governanta, D. Teresa de Jesus. Esta imagem do velho oficial superior da Marinha no cemitério pressagia a inelutável certeza de que o seu fim estaria próximo. Restava-lhe pouco tempo, antes do ansiado reencontro com os seus entes mais queridos. O que veio a acontecer a 18 de Fevereiro de 1959. Nesse dia, Gago Coutinho despediu-se da vida tal como entrara – na mais desnuda humildade. E com a noção de que deixara para trás “imensas coisas por fazer”.

Texto escrito com a antiga ortografia
Nota: Por lapso, no título do artigo anterior, colocámos a dupla consoante do nome do pintor veneziano Canaletto de forma errada. Não é na letra “l” mas sim na letra “T”. As nossas desculpas!

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