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A Morte de Sidónio Pais

O Sidonismo foi a primeira experiência nacional dum regime autoritário, assente em princípios corporativos, que, sob um regime presidencialista, se estruturava politicamente num partido, o Partido Nacional Republicano, nas Juntas Militares, na polícia preventiva, na censura, num parlamento onde intervêm as forças económicas e sociais. Perseguira, prendera e exilara, os democráticos de Afonso Costa, não tivera o apoio dos evolucionistas de António José de Almeida, perdera o dos unionistas de Brito Camacho, como o da União Operária Nacional. Era uma República aceite pelo Centro Católico Português e controlada pelas correntes legitimistas da monarquia, com influência no oficialato, que procurara, por todos os meios, não intervir na Guerra, mas brilhava na sumptuosidade das fardas de rigor nas paradas de grande aparato militar.
Sidónio, presidente-rei, figura adorada pelas elites femininas, pela alta e média burguesia e pelo povo rural conduzido pelo caciquismo dos grandes e médios proprietários agrícolas, elevado à altura dum Nun’Álvares a caminho da beatificação, sofreu, nos seus últimos meses de governação, a resistência do operariado que o ameaça com uma greve geral em 18 de Novembro, só mitigada pelo surto da pneumónica que devastara muitas das suas casas; uma tentativa derrotada de golpe militar a 12 de Outubro dos partidos republicanos unidos para esse fim, que leva a prisões e à dramática «leva da morte» (16/10), quando os presos políticos transportados para embarque com destino a degredo são emboscados e mortos, sem defesa e com total impunidade. Enfrenta também a desconfiança das Juntas Militares que, controladas por altas patentes monárquicas, se preparam para a continuidade do pós-sidonismo. O poder presidencial esfuma-se. E, quando se preparava para seguir para o Porto, a 14 de Dezembro, a fim de tentar moderar a Junta Militar do Norte, que ameaçava, como o fez depois, ressuscitar o regime monárquico, foi assassinado na estação do Rocio. Só a 19 de Dezembro a Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Torres Novas, toma posição. O presidente; Dr. João Marins de Azevedo, justifica o adiamento, por ter estado em Lisboa na altura dos acontecimentos, numa intervenção de pesar e protesto exarada em acta. Não devemos nem podemos nas presentes circunstâncias cair no desalento. Para honrarmos as cinzas do ilustre morto, temos, com decisão e energia, de dar alento, dar força a quem se impuser a árdua tarefa de prosseguir a sua obra. Por tôdos estes motivos eu proponho: 1º – Que se lance na acta um voto de profundo sentimento pela perda irreparável do nosso tão querido Presidente da República Portuguesa e um veemente protesto contra tão vil e cobarde atentado. 2º – Que se envie ao Excelentissimo Senhor Presidente de República (Almirante Canto e Castro) o telegrama de teor seguinte: «A Comissão Municipal do Concelho de Torres Novas, fiel e legitima interprete dos sentimentos dos munícipes, pranteia desoladamente a perda irreparável do grande Português e Grande presidente da República, Dr. Sidónio Pais, que um atentado vil e cobarde roubou à nossa querida Pátria e, dominada pela mais viva indignação e repulsa contra os que prepararam e praticaram tão nefando crime, vem perante V. Exª patentear o firme e decidido propósito em que está de apoiar todos os que impuseram à difícil mas benemérita tarefa de continuar a obra começada pelo ilustre extinto». 3º – Que esta Comissão Administrativa se faça representar no funeral pelos seus vogais: António Casimiro Serrão, Luís de Albuquerque e Manuel Maria Maia. 4º – Que solicite dos comerciantes e industriais do concelho o encerramento dos seus estabelecimentos no próximo sábado, dia designado para o funeral. 5º – Que em sinal de luto se encerre esta sessão. Admitida a proposta foi sem discussão aprovada por unanimidade. Presente o Administrador do Concelho associou-se à proposta camarária. Também, ainda que menos expansivo, e mesmo sujeito a crítica, O Almonda, por a 22, noticiar em poucas linhas o assassinato, abrindo subscrição para uma estátua a erigir no concelho, só a 22 preenche a 1º página com um editorial intitulado Crime, no qual, além da manifestação de mágoa e pedido de justiça, define o sentido integralista do grupo fundador do jornal: «nós, imparciais à política que se desenvolve horrendamente há um século neste paiz e livres portanto d’esse gérmen de antipatia e desordem, n’esta hora triste de mágua e de sofrimento psíquico, oramos a Deus pelo bom recolhimento da sua alma, forte e bôa, heroica e destemida».
Ainda que de forma mais crispada, o reverso também existe. Um exemplo, o de João Coelho, funcionário da Administração que a 15, comenta em vários sítios o seu regozijo pela morte de Sidónio, ao ponto de o denunciarem por lhe terem ouvido comentar. Estou vingado! Estou vingado! (Cor. Admin., Lº 1547. Fls. 174), o que lhe mereceu a prisão. O pós sidonismo irá conduzir, oito anos depois, à revolução do 28 de Maio.

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