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Os prós e os contras

Em O Almonda de 27 de abril transato, li duas crónicas sobre os Índios brasileiros e o domínio que sobre eles tiveram os Portugueses. Esquecemo-nos, muitas vezes, que a nossa apreciação de acontecimentos com quinhentos anos, podem desfocar os factos porque a nossa mentalidade mudou muito e os valores da nossa sociedade alteraram-se, algumas vezes, para melhor. Contudo há uma pergunta que eu faço sempre que os coitados dos nossos navegadores são vistos só pelo lado da ganância, do domínio e da escravatura. Nestas coisas nem fomos dos piores. É que das nações grandes só se diz bem. Quando chegamos a Terras de Santa Cruz, Pero Vaz de Caminha relatou na sua carta a El-Rei D.Manuel o seu pasmo e sobretudo a ideia que os Índios eram gentes diferentes daquelas que encontramos na África. Por isso a carta é de uma beleza tal que muito poucos a conhecem e sobretudo muito poucos nela refletem. Vou só citar dois trechos muito significativos sobre os Índios. Diz Vaz de Caminha: “A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. Andam nus sem cobertura alguma. Nem fazem mais caso de encobrir suas vergonhas do que mostrar a cara. Acerca disso são de grande inocência.” E aqui dou toda a razão ao articulista porque fomos estragar aquilo que era tão natural, tão bonito e a liberdade total como eles viviam! Os primeiros contactos foram maravilhosos e só nos encanta a maneira de escrever de Pero Vaz de Caminha. Mais adiante, falando das mulheres, dizia: “E uma daquelas moças era toda tingida de baixo a cima daquela tintura e certo era tão bem feita e tão redonda e sua vergonha tão graciosa que a muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhe tais feições, envergonharia por não terem as suas como ela.” Quisemos depois explorá-los, escravizá-los, dando de barato a sua inocência e a receção natural e calorosa aos navegadores. Estes factos não têm desculpa mas temos de os enquadrar na sua época. Parece-me que Pero Vaz de Caminha já era um homem do Renascimento e tanto assim foi que o rei português proibiu que se escravizassem os Índios. Também não podemos esquecer o papel do Padre António Vieira na luta pela liberdade dos Índios! Podemos comparar a ação dos portugueses com os massacres dos americanos aos seus índios?’ Podemos comparar o que os portuguese fizeram com as conquistas espanholas? Enfim, este pequeno retângulo não merece qualquer consideração. Pergunto: porque é que nós, com tão poucos meios fizemos uma nação tão grande? Era utópico deixarmos as populações indígenas viverem nas suas terras sem qualquer espécie de domínio. Seria um milagre se assim fosse. Teremos que pedir perdão a todos os povos com quem contactamos e nalguns casos escravizamos? Talvez fôssemos cristãos de nome e não de coração.

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