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O dia em que Carlos Reis superou o pintor Canalleto

onhecido no domínio das belas artes por Canaletto (1697-1768), é um pintor veneziano que muitos portugueses recordam por via de um concorrido leilão, realizado pela famosa casa londrina, “Christies”, no mês de Julho de 2005. Algumas obras do célebre artista italiano integravam a magnífica colecção de objectos de arte de António de Sommer Champalimaud (1918-2004). Que foram vendidas para benefício da a inimaginável quantia alcançada pela jóia artística do pintor veneziano é a invulgar dimensão da tela: cerca de 1,40 por 1,40 metros. Tamanho que contrasta com a maior parte dos quadros de Canaletto. Que não excedem os 50 por 60 centímetros. Nascido em Veneza a 17 de Outubro de 1697, Giovanni António Canal começou a sua carreira como aprendiz do seu pai, Bernardo Canal, pintor de cenários teatrais. Em Roma, Canaletto marcadamente rigorosa e linear. Nota-se, por parte do pintor, a persistência nos detalhes arquitectónicos e a atenção minuciosa aos pequenos elementos que integram as suas melancólicas vistas e paisagens urbanas. Para obter um maior realismo no detalhe o pintor veneziano recorreu, nas suas composições pictóricas, por diversas vezes ao uso da câmara escura. Como Carlos Reis, Canaletto preferiu a pintura ao ar livre. Daí as suas telas reflectirem a luminosidade de um determinado momento do dia. Os assuntos dos seus quadros podiam incidir sobre temas simples do quotidiano ou a propósito de alguma importante celebração. Canaletto foi um pintor muito procurado pelos turistas, principalmente ingleses (num determinado período da sua vida mudou-se para Londres, onde se dedicou a pintar paisagens inglesas), que pretendiam levar para casa uma recordação de Veneza. Era moda os turistas adquirirem as suas paisagens cenográficas e caprichos (visões imaginárias) com motivos arquitectónicos, ruínas, vistas da cidade e monumentos. Hoje em dia, qualquer quadro de Canaletto pode ascender a um valor superior a um milhão de euros. Quantia que o coloca alguns patamares acima dos valores licitados pelas pinturas da maior parte dos artistas nacionais. O caso do pintor Carlos Reis (1863-1940) não foge à regra: nunca uma obra do ilustre torrejano atingiu um preço tão elevado! Mas houve um dia em que o valor de uma tela a óleo de Carlos Reis superou a do pintor Canaletto. O invulgar registo aconteceu na quinta-feira, do dia 4 de Abril de 1974. Num leilão organizado pela antiga agência Soares & Mendonça, Lda., em Lisboa. O antigo dono do catálogo – que por mero acaso caiu nas nossas mãos – teve a inteligente ideia de indicar nas suas páginas os preços a que foram licitadas as pinturas. Legando-nos a possibilidade de historiarmos este raro mo- mento vivido no mercado das artes.
Nesse memorável leilão, a obra de Canaletto “Vista do Canal de Veneza” (alt. 0,46×0,63) foi a primeira pintura a ir à praça, num lote onde pontificavam os nomes de José Malhoa (extra catálogo), Carlos Reis, Bonvalot, João Vaz (extra catálogo) Sara Afonso, Jean Honoré Fragonard, João Reis, Francis Smith…, e o pintor Domingos António Sequeira (1768-1837). Representado no catálogo por um conjunto de 51 desenhos (conhecido como álbum do Palácio de Arroios) que seria vendido pela elevada cifra de 1.750.000$00 escudos. Uma quantia deveras significativa para a época! No texto introdutório do catálogo é referido que o conjunto de Domingos Sequeira, “por si só, vale o leilão”. O quadro a óleo de Canaletto alcançaria o modesto valor de 101.000$00 (pouco mais
de 500 euros). Quantia que Fundação, criada por vontade testamentária do controverso capitalista português. No significativo acervo de peças de Champalimaud destacava-se o famoso quadro a óleo de Canaletto “O Bucintoro no Molo no Dia da Ascensão” (1754), que atingiria a astronómica quantia de 16,8 milhões de euros. O valor mais alto até aí alcançado por uma tela de Canaletto. Uma das razões que explicam desenvolveria a sua arte na pintura de paisagens, influenciado por artistas de renome como Gian Paolo Panini (1691-1765) e Gaspar Van Wittel (1653-1736). De volta à sua cidade natal, Canaletto estudaria o estilo “vedutisti” com Luca Carlevarijs (1663-1730). Sendo, hoje em dia, considerado um dos expoentes máximos do movimento artístico denominado Vedutismo. A pintura de Canaletto é caracterizada por uma perspectiva ficou muito aquém do valor pago pela tela de Carlos Reis
“O Cupidinho de Gesso – Nu feminino” (alt. 0,74×0,55). Foi licitada por mais do triplo do preço. O desconhecido vencedor do lote n.º 11 pagaria 304.000$00 (pouco mais de 1500 euros, a que devemos juntar as respectivas comissões) pela obra artística do torrejano ilustre. Momento como este jamais voltará a repetir-se no estranho mercado das obras de arte. Resta-nos a alegre lembrança, no dia em que a comunicação social voltar a anunciar novamente uma astronómica quantia paga por um quadro do pintor veneziano que, por uma vez, o valor de uma obra artística de Carlos Reis superou a de Canaletto.

Texto escrito com a antiga
ortografia.

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