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Cuidar dos outros

De médicos (veterinários) e loucos, todos temos um pouco

Por: Telma Gomes

As minhas recentes aventuras no mundo da saúde – da minha, não dos meus pacientes – levou-me a refletir sobre a forma como tratamos aqueles que cuidam de nós, e dos nossos animais. Parti um braço – o direito, e eu sou dextra. Foi uma daquelas fraturas que arrepiam quando se vê o braço num ângulo esquisito. Vivi as piores dores da minha vida. Perdi aquela autonomia que, no dia-a-dia, damos por garantida. Quem se congratula todos os dias por poder cortar o bife do almoço ou por conseguir tomar banho? Aguardei cirurgia durante uma semana, num quarto de hospital sem porta na casa de banho. Não foi fácil. Mas fácil também não foi a vida daqueles que cuidaram de mim – e de tantos outros. Não que eu fosse uma paciente difícil – sei o que é trabalhar por vocação numa profissão que lida com os momentos de maior fragilidade dos seres: a dor e a morte. Sei o que é trabalhar horas a fio, turnos sobre turnos, com a necessidade imperativa de uma cabeça funcional que diagnostique e trate. Sei o que é ter mais pacientes do que aqueles de que posso cuidar. Assisti ao desespero da enfermeira da urgência que se ocupou de mim – e de muitos que precisavam dela ao mesmo tempo que eu. Nunca a vi parada, e nunca a vi ser rude ou brusca com nenhum doente. Sei o que é receber pacientes que já vêm mal – no meu caso, os pacientes não se dirigem sozinhos ao serviço de urgência, pelo que terão de esperar que o seu cuidador tenha esse discernimento – fazer tudo o que é humanamente possível pela sua sobrevivência e bem-estar e, ainda assim, tenha de atirar a toalha ao chão porque, simplesmente, não resistem. Sei o que é lidar com a dor dos que aguardam, dos que padecem e dos que ficam. Sei o que é lidar com palavras injustas, que colocam em causa o nosso trabalho – o atual e o de anos de intenso estudo. Abdicar de encontros de família, de horas de sono na cama, para fazer aquilo que preenche a alma: salvar vidas. De pessoas, de animais. Vidas. Da próxima vez que se dirigir a um centro médico – de medicina humana, ou veterinária, lembre-se: há alguém que está a dar o seu melhor para salvar vidas. Alguém que também sente compaixão e que, muitas vezes, trabalha em situações adversas. Lembre-se de que, à semelhança da sua situação, existem outras. Saiba esperar. Saiba ouvir. Temos o dever de tratar bem o outro, se queremos gozar do direito de sermos bem tratados. Aproveito para deixar o meu agradecimento público a toda a equipa que cuidou de mim no hospital de Abrantes. Em condições impossíveis, havia sempre um sorriso. Obrigada.

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