Home > Crónicas > A lei da ignorância

A lei da ignorância

De há muito, está escrito que o sábado é feito para o homem e não o homem para o sábado. Quer isto dizer que a lei deve estar ao serviço do homem. Mas nem sempre assim acontece, mesmo em democracia a lei aparece muitas vezes enviesada ou por culpa do legislador ou por culpa de quem aplica a lei. Com os terríveis incêndios do passado verão, soaram tantos alarmes, puseram-se tantas trancas à porta de casa arrombada, que muitas vezes falta a serenidade para que a resposta à tragédia seja eficaz. E foi assim que se chamou para aplicação uma lei que tem já alguns anos mas a que não se dera grande importância. Essa lei obriga a limpar áreas envolventes às casas isoladas, aldeias e estradas até 15 de março. Aqui temos uma lei que não está ao serviço do homem porque não tem em consideração a realidade. Muitos agricultores, assarapantados com o limite temporal da lei, foram aos seus terrenos e vá de desbastar, de cortar, tudo a eito. E é claro que ervas e fenos cortados até 15 de março quando chegar julho já têm três palmos de altura e no pino do verão serão um material muito propício ao lavrar de incêndios. Mas o legislador, na placidez do gabinete ignora, ou convém-lhe, que a partir de março as ervas cortadas voltam a crescer e são um material muito conveniente para incêndios. Os incêndios não se combatem com leis que ignoram a realidade. Combatem-se atacando a lucrativa indústria dos fogos; enfrentando com eficiência os incêndios; recusando a complacência para com os incendiários, tomando medidas contra o abandono do interior. Esperemos que no próximo verão não arda o que falta arder, por incúria ou por sujeição a estranhos interesses.

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *