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Sobre Portugueses e Canibais

Eles chegaram do mar. Para eles essa travessia representava riquezas e glórias. Ainda em mar, avistaram os selvagens que ali estavam. Para seu espanto e graça os viram nus. Este foi o encontro derradeiro entre portugueses e silvícolas ao longo das praias brasileiras de 1500. Surpresos em se verem uns aos outros, a selvajaria e a lusitanidade realizaram um encontro pacífico e começaram por trocar alimentos. Pouco mais tarde, essa paz se desfaz. Nos anos seguintes reverte-se no seu contrário: os selvagens começam a ver que os mercadores e mercenários não eram anjos, filhos de Maíra, a deusa do mar, mas, predadores, que caíram sobre eles. E como as profecias mais pessimistas, os selvagens veem o seu mundo em decomposição, em despojo, em cativeiro, e muitos se deixaram morrer, como só eles sabiam fazer. Morriam de tristeza, de saudade, de frustração, certos de que todo o futuro possível seria a negação mais horrível do passado, e nesse novo mundo, para eles restara uma vida sem alegria e sem alma. Por séculos, a costa atlântica da América do Sul foi ocupada por civilizações de fala tupi, que se instalaram, dominadores, na imensidade dessa região. O que mudou totalmente esse mundo foi a chegada desse novo personagem, o Português. Frente à dominação europeia, os índios defenderam até o limite possível seu modo de ser e de viver. Sobretudo, depois de perderem as ilusões dos primeiros contactos pacíficos, quando perceberam que a submissão ao hospede que se tornou invasor, representava sua desumanização como bestas de sexo e máquinas de trabalho. Nesse conflito de vida ou morte, os selvagens de um lado e os colonizadores do outro, dividiu-se a missão Católica, que, em parte, aliou-se aos selvagens. Os selvagens eram formados por tribos, onde não existia género de tráfico, conhecimento de letras, ciência de números, nome de magistrados ou de outra dignidade que indicasse superioridade, servidão, riqueza ou pobreza. Os selvagens eram, a seu modo, inocentes, confiantes e com claro sentimento de honra, glória e generosidade, capacitados, como gente alguma jamais o foi para a convivência fraterna e partilhavam a mais bela das matas. Contratos, processos, moedas, nada disso era preciso para organizá-los. Suas ocupações: agradáveis. Suas relações: as mais naturais. Nem roupas, nem agricultura, nem trabalho proletário. Não cultivavam, nem fabricavam. Da mentira, da traição, da dissimulação, da avareza, da inveja, da maledicência ignoravam até a palavra. Aos olhos dos europeus, eram preguiçosos, vivendo uma vida improdutiva e sem lucros e chamaram-nos índios porque pensavam terem chegado às índias… Mas os índios também eram homens e porque se chamavam homens tinham sonhos, por seus sonhos, foram à guerra. Impelidos pela proteção da mata, pela honra de suas mulheres e em defesa de seus filhos, com lanças, flechas e tacapes de paus, eles foram à guerra. Os europeus de condição evolutiva mais adaptada, fortalecidos pelas comunidades neobrasileiras, com as bênçãos do Santo Ofício, armados de canhões e arcabuzes, venceram os selvagens e não perderam uma só batalha, condicionando por séculos uma guerra de extermínio. Os índios viram morrer seus guerreiros no litoral do hemisfério sul. Os europeus, vitoriosos, contaram sua versão da história e os Papas os abençoaram porque mataram canibais.

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