Ao Bom Povo da Brogueira, terra de minha mãe.
Depois das eleições presidenciais de 1958, Humberto Delgado (1906-1965) sofreria ferozes ataques perpetrados pelo regime fascista. Nunca lhe perdoaram a veleidade de afrontar o seu chefe supremo e de ter posto em causa as fraudulentas eleições. Por outro lado, havia por parte do regime o comprovado receio de que o ilustre General torrejano prosseguiria no indómito propósito de querer implementar um Estado democrático no país. O que fazia de Humberto Delgado o inimigo público número 1 do ditador António de Oliveira Salazar. Sobre o torrejano ilustre pairava o iminente cenário de prisão ou, pura e simplesmente, de assassinato. Prevendo o perigo, e de forma a antecipar-se aos intentos dos seus inimigos, a 12 de Janeiro de 1959, Humberto Delgado toma a inteligente decisão de solicitar asilo político à embaixada do Brasil, em Lisboa.
Nesta conturbada fase da sua vida, Humberto Delgado, teve na pessoa do então embaixador Álvaro Lins um seu incondicional guardião e defensor. Que envidaria todos os esforços para que o distinto general pudesse rumar ao país irmão em liberdade. Facto que veio a acontecer a 21 de Abril de 1959. No dia do aniversário do Tira- dentes (herói nacional brasileiro que, como o torrejano ilustre, morreria na luta pela libertação seu povo), o “DC-7C” da “Panair”, onde ia Humberto Delgado, alcançava as margens marítimas do território brasileiro. Ao avistar o magnífico relevo da cidade do Rio de Janeiro, o “General sem Medo” não conseguiu esconder a forte emoção que se desprendia dos seus olhos. No aeroporto do Galeão, uma entusiástica multidão espera- va-o de braços abertos. Os órgãos de comunicação social também não quiseram faltar à inolvidável chegada daquele que, para muitos, era o verdadeiro presidente-eleito de Portugal.
Logo que o General aparece, a multidão irrompe num frenético agitar de bandeiras dos dois países irmãos, enquanto num interminável e uníssono grito se repetia: “Portugal! Delgado! Brasil! Liberdade!”. As lágrimas assomaram ao rosto de Humberto Delgado.
A comoção entaramelava as suas palavras de agradecimento dirigidas à numerosa plateia que o elegeu como porta-estandarte da libertação do seu oprimido país. Consegue ainda dizer: “Brasil! Portugal! Liberdade!”, antes das lágrimas novamente descerem dos seus olhos entumecidos. “Um mar humano cerca e aperta, quase esmaga o líder magnífico dos Portugueses Livres. Pedem os repórteres uma palavra, querem os portugueses um abraço do seu Chefe (…) Emocionados, muitos portugueses choram, lágrimas que são de agradecimento à Pátria frater- na e de alegria por verem finalmente liberto o seu Chefe incontestável.” (“Portugal Democrático”, Ano III, nº 24, São Paulo, Maio de 1959, pág. 4). Lá fora, o carro do director do “Diário de Notícias”, João Dantas, espera-o para o levar ao hotel Glória. Envolto na multi- dão, que não parava de o ovacionar e de lhe apertar as mãos, com dificuldade, Humberto Delgado consegue entrar no automóvel. O entusiamo redobra nos rostos dos presentes em agradecimento ao seu incontornável líder. Ao “Homem que abalou os alicerces do mais ignominioso regime que, até hoje, pesou sobre os portugueses”.
Por fim, o torrejano ilustre segue em direcção à cidade. Ao longo da Avenida Brasil e da Avenida Getúlio Vargas mais de uma centena de automóveis acompanha-o no seu trajecto até ao hotel, ao som das buzinas. As bandeiras continuam a ser agitadas com vibração. Gritos e aplausos ao General ecoam tanto por parte dos portugueses que o seguem como da população que assiste ao desfile. Antes de rumar ao hotel Glória, Humberto Delgado ainda fez uma paragem de cerca de um quarto de hora, no “Diário de Notícias”, onde os jornalistas o questionaram sobre os seus planos para o futuro. Das palavras do ilustre general saiu a firme convicção de continuar na luta contra o regime de Salazar. E de ter a pretensão de ser o líder da resistência no Brasil, se os exilados portugueses assim o permitissem. (Na verdade, Humberto Delgado deparar-se-ia com uma oposição portuguesa dividida em facções e enredada numa teia de intrigas e de egos desmedidos. Como é referido no livro da sua secretária, Arajaryr Campos, “Uma Brasileira Contra Salazar”, Livros Horizonte, 2006, págs. 43-51). À pergunta final, sobre a duração do seu exílio no Brasil, e para quando o seu regresso a Portugal, Humberto Delgado respondeu que era o seu desejo voltar à sua pátria. Promessa que, mais tarde, chegaria a cumprir. Aquando a célebre Revolta de Beja, denominada “Operação Íkaro”. Ocorrida na noite da passagem de ano de 31 de Dezembro de 1961 para 1 de Janeiro de 1962. Várias delegações de resistentes portugueses de São Paulo e do Rio de Janeiro abraçaram e confraternizaram efusivamente com Humberto Delgado. Inquestionável líder do recém-criado “Movimento Nacional Independente”. Por entre vivas e palmas, o ilustre torrejano abandonaria o edifício do grande matutino carioca, a caminho do Hotel Glória, onde se encontrava um grupo de populares. Que o recebeu entusiasticamente debaixo de um sonoro coro de ovações, vivas e palmas, misturado com calorosos abraços. No final, Humberto Delgado despediu-se de todos proferindo estas sentidas palavras: “Agradeço ao Brasil”.
Apesar de ter vivido tão emocionante e inesquecível recepção, o pensamento de Humberto Delgado sempre esteve voltado para a sua querida Pátria. Era para ela que pretendia regressar. E foi com esse firme intento que do Brasil escreveu uma mensagem ao povo português. Em que pede aos portugueses para não perderem a fé de que, um dia, a liberdade e a justiça voltariam a iluminar os seus sonhos. (O panfleto seria espalhado clandestinamente em Portugal). Foram precisos mais alguns anos para que o ambicionado dia chegasse. Sobreveio numa madrugada do mês de Abril de 1974. Quase uma década depois do Arauto da Liberdade ter sido chacinado pelas balas dos verdugos da ditadura do Estado Novo.

Antiga ortografia

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