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Abril, outra vez

Muitos dos que encheram estas ruas, celebraram na praça, já partiram, e os que por aí andam quase todos estão velhos. É que passaram algumas décadas. E a memória tende a diluir-se. Olhamos as fotografias desses dias e ainda ouvimos os ecos das vozes, os cânticos. Vemos nos rostos a alegria, sentimos a espera de um tempo novo. A festa apoderou-se do tempo. E havia tanta, tanta promessa para um futuro que aí vinha. Algumas dessas promessas foram cumpridas, outras adiadas, outras atiradas para a terra do Nunca. Que compromissos assumimos com a nossa liberdade? Como nos empenhámos e resistimos à indiferença? Como deixámos sacrificar a interesses particulares os caminhos da vida colectiva? Que gesto, que acção, colocámos na participação da construção do mundo? Abril aí está de novo. É realidade e promessa. Foi entregue nas nossas mãos e deixámos que a festa durasse um tempo breve. Mas, apesar de tudo, este sabor amargo abriu-nos infindos caminhos de construção do futuro. Contudo o grito que, então, ecoou por estas ruas: “o povo é quem mais ordena”, foi tantas vezes ludibriado e o povo que ordena foi ordenado. Basta olhar para os últimos tempos para vermos que foi assim. Houve um governo que, por desmandos financeiros, nos entregou nas mãos da troika e aí perdemos muito da nossa independência; outro governo, que veio depois, quis ir além da troika e arrastou-nos para o fundo e, actualmente, o governo preocupado com o deficit, deixa na penúria serviços públicos e o povo é substituído pelos números. Assim não. Estamos num terreno de muita esperança morta e há um profundo cansaço na espera. Assim não é Abril. Mas será.

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