Home > editorial > O Comboio

O Comboio

Um comboio corta o Ribatejo. Fura as montanhas e atravessa a Serra da Aire. Vai pelos Riachos, Azinhaga, Torres Novas, Meia Via. Corre veloz. Atravessa rios, desliza como um fio em movimento sobre o Almonda. Dentro dele se deslinda o drama humano. Há gente de toda gente no comboio. Gente que conversa. Gente que cala. Gente que trabalha, usa o computador. Há gente de negócios, com fato, gravata. Gente séria. Há gente que contempla distraidamente a paisagem da janela. Há gente que comenta futebol, gente que lê o jornal e até se surpreende com o eterno retorno. Há gente inquieta no comboio. Gente que sofre, gente que chora, gente que ri, gente que ri de quem chora. Gente que cometeu crimes e pensa estar a fugir. Gente que pensa mal dos outros. Gente que apaga as luzes, fecha as cortinas, não quer falar. Gente de luz que se alegra com a viagem e sorri com um mínimo de beleza. Há gente que gosta de viajar de comboio. Há gente que por razões existen- ciais é contra o comboio. Há quem se atira do comboio pensando que assim não vai mais viajar. Há gente que chora e até se desespera porque alguém desceu antes dela. Há gente que pensa ter errado de comboio, não sabe que só existe um comboio. Há gente que não se questiona, pois sabe onde está e não se preo- cupa a que horas vai chegar. Há gente ansiosa, que corre para os primeiros vagões no afã de chegar antes, pensa assim levar vantagem sobre os outros. Há gente inquieta e sempre a mudar de assento. Há gente medrosa que quer retardar o mais possível a sua chegada colocando-se nos últimos lugares. E ainda há gente que pretende fugir do comboio andando na direção contrária. O comboio, calma e serenamente segue seu caminho traçado pelos trilhos. Despreocupadamente carrega a todos e a todos propicia uma viagem que pode ser esplendorosa, garantindo deixar a todos no seu ponto de chegada inscrito em sua rota. Nesse comboio, como na vida, todos viajam gratuitamente. Uma vez em movimento o comboio se torna a nossa própria carne. Mas ele não se modifica, só o ser humano se modifica e pode estragar sua viagem: rechaçar o comboio, correr ilusoriamente contra sua direção, empurrar os passageiros para fora, brigar com o condutor e escrever contra as leis do comboio de nada adianta. O comboio suporta e carrega também os rebeldes, com toda a paciência, e, no seu balanço, muda corações. A vida é como um comboio, é uma viagem generosa para todos nós. De tempos em tempos, a viagem nos faz dormir, enjoar, distrair, acordar. Nesse momento, o viajante percebe que de nada adianta sua resistência. O mais razoável é escutar o chamado de nossa natureza e deixar-se seduzir pela oportunidade de uma boa viagem. Eu estou tranquilamente inquieto no comboio. E você leitor? Como viaja? Boa viagem.

Durval Baranowske, diretor

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *