Os velhos

Há dois mil anos, na cidade de Roma, antes do aparecimento de Cristo, um grande escritor falava assim da velhice: “A velhice priva o homem dos prazeres. Se se faz menção da volúpia, é isso um extraordinário privilégio, pois a velhice ficaria, então, livre da tirania das paixões que enfraquecem a alma e cegam o espírito. Há, para os velhos, outros prazeres, mais calmos e de suave doçura: os prazeres do espírito que parecem manifestar mais encanto à medida que se vão saboreando.” Quem assim escrevia, era alguém que aos sessenta anos já era considerado muito velho. Dois mil anos fizeram-nos velhos aos setenta ou oitenta. Grande progresso! Já sabemos que daqui a vinte anos, teremos em Portugal milhões de velhos. Quase com certeza que já cá não estarei e os que então gozarem os seus trinta ou quarenta anos, portanto jovens, terão um grande problema entre mãos. Mas o nosso Cícero, o escritor do texto citado, cujo título é “Catão o velho ou DE senectute (acerca da velhice) encara a velhice duma forma positiva, pondo o acento tónico nos prazeres do espírito. Apesar de dois mil anos de Cristianismo, nunca soubemos educar os nossos homens e mulheres para a velhice. Os pobres porque tinham de trabalhar até as forças lhes faltarem e os ricos entregavam-se aos vícios ou vingavam-se nos seus criados. Muito poucos velhos gozavam dos prazeres do espírito de que fala Cícero. De facto os que podiam teimavam em querer usufruir da luxúria, do deboche, da prepotência com grave prejuízo da sua saúde física e mental. Ainda assim podiam ter o prazer de verem netos e bisnetos crescerem, tendo com os seus avós e bisavós uma relação sadia e admirativa. Não eram precisos lares nem casas de repouso. Vivia-se e morria-se rodeado da família ou dos vizinhos amigos. Tudo isto desapareceu com raríssimas excepções. Aqui a cultura, a experiência, a sabedoria têm uma importância capital para proporcionar aos mais velhos o gozo de experimentarem os prazeres do amor pleno, da amizade desinteressada, de tudo o que não depende dum corpo alquebrado, nem de paixões destruidoras. Quantos jovens não estariam dispostos a apoiar iniciativas de apoio moral aos nossos velhos, dando e recebendo os bens do espírito? Porque não custa ser velho, o que custa é não saber ser velho.

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