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O ponto focal

Domingo passado, Pascoela…
O primo vive um pouco à margem da sociedade, não tanto inteiramente estar alheado do mundo que o rodeia, numa casa que construiu. Dou-lhe valor: a minha casa foi ocupada pronta a habitar, sem que eu tenha metido a mão na massa, passo a expressão! Tem uma varanda aberta sobre a paisagem, envidraçada, alto a baixo, com portas de correr, donde se vê o olival antigo. Entre galegas e uma outra lentrisca, tem seguramente mais de 200 árvores. Disseram-me que a oliveira já está a encachoar, mas ainda não vi! Na varanda, no entardecer, a paisagem tinha inúmeros planos, até ao horizonte. Chovia que Deus a dava, lá dentro o meu primo via televisão. Deixei-me estar. O céu tinha uma estranha luminosidade porque apesar da chuva raios de sol rasgavam as nuvens. Já arroxeada, recortada de eucaliptos, a última encosta. A linha das árvores da ribeira envenenada, ainda serradinho. Os telhados da fábrica de fazer terra, com resíduos mal cheirosos. Terra à vista desnudada. Oliveiras, sobreiros, pinhal manso. Choupos e freixos, na ribeira ainda boa água, antes da foz da serradinha. Uma várzea de trigo. A doce encosta de amendoeiras, descendo da varanda, até à nora, aninhada entre romãzeiras e figueiras, subindo depois cheia de oliveiras, algumas recortadas contra todos os planos do horizonte: céu cinzento, eucaliptos rendilhados, margens dos ribeiros, os telhados assombrados que melhor seria se não se vissem. Das oliveiras retorcidas, cabeleiras desgrenhadas uma, mais pequena, um grande buraco negro no seu tronco, uma cara, um grito, uma boca escancarada, desdentada. duma bruxa. Na paisagem longa do entardecer: o ponto focal.

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