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Dois trágicos acontecimentos em 1918

Comemorou-se esta semana, a 9, a tragédia portuguesa na frente ocidental da 1ª Guerra Mundial, com a derrota na batalha de La Lys, na Flandres francesa, em que, no fim dum poderoso ataque alemão, o exército português, já por si desmoralizado e sentindo-se traído pelo governo da República, que desde a vitória sidonista, não substituiu as tropas da frente, mal alimentados, mal vestidos, comandados por oficiais incompetentes, sem condições de higiene, numa região fria e húmida, onde passaram todo o Inverno, sofreu um embate tremendo que, em poucas horas acabou com toda a sua capacidade de resistência. Não o esperavam, já que devido à fraca motivação e capacidade das tropas lusas, os ingleses tinham decidido que uma das duas divisões, no total de 50 mil homens, a de Gomes da Costa, seria rendida de 9 para 10 de Abril. Neste mesmo dia, depois da frágil resistência, a guerra terminara, na Flandres, para Portugal. Os sobreviventes foram retirados da frente, desmoralizados e desesperando por um regresso, demorado e pouco receptivo, na pátria. Para os prisioneiros, quase sete mil, um longo fadário até ao seu regresso a Portugal, como nos conta Maria José Oliveira, no seu estudo Prisioneiros Portugueses da 1ª Guerra Mundial. Mas outro acontecimento trágico marca o planeta neste ano: a gripe pneumónica, ou espanhola, ou peste pneumónica, como ficou conhecida entre nós. Considerada a maior pandemia conhecida, superior em mortos à Peste Negra do século XIV (1348/1352), atingindo cerca de 5% da população mundial. Os primeiros casos surgem nos Estados Unidos em Março de 1918; e na Europa em Abril, disseminada pelas tropas americanas entre as forças na frente de guerra. A gripe manifesta-se em três ondas epidémicas. A 1ª, mais benigna, que se confun
de com a gripe, termina em Agosto de 1918. A 2ª, no Outono, termina em Dezembro/Janeiro, com uma taxa de mortalidade a rondar entre 6 a 8%. A última, entre Fevereiro e Maio de 1919. Em Portugal surge o primeiro caso em Maio, em Vila Viçosa, trazida pelos portugueses que trabalhavam em Badajoz ou em Olivença. Propaga-se rapidamente no Alentejo. Em Junho, verificam-se os primeiros casos em Lisboa e Porto. Em Setembro, chega à Madeira e aos Açores. No Outono converge para uma área alargada da bacia do Tejo, entre Lisboa e Santarém, onde a mortalidade é maior, sendo o caso mais
extremo o de Benavente, com 7% de mortalidade. O historiador Joâo Frada, em A Gripe Pneumónica em Portugal Continental – 1918 aponta para, no país, um número de 60.474 mortos, uma taxa de mortalidade de 962 pessoas por 100 mil habitantes. Cerca de 2,5% dos infectados faleciam. Outras doenças, como enterites e tuberculose, agravam a mortalidade. Os grupos etários mais afectados: as crianças, entre os 12 e os 24 meses; os adultos, entre os 30 e 39 anos. As medidas sanitárias de combate à pandemia foram
assumidas, em Portugal, pelo Dr. Ricardo Jorge, director do Instituto Central e Higiene, que compreendiam a notificação de todos os casos, isolamento de todos os doentes, proibição de movimentações militares e de trabalhadores agrícolas, regulamentação dos preços das consultas ao médicos e nas farmácias do preço dos medicamentos. Vejamos como se desenrolou a segunda vaga em Torres Novas, competindo ao administrador do concelho, o alferes João Tomás Gonçalves, a informação detalhada das situações locais. A correspondência da Administração com o Governador Civil permite-nos conhecer as medidas tomadas, o desencadear da pneumónica, a sua curva de crescimento e declínio, até ao seu desaparecimento. O espaço deste artigo não permite a apresentação do quadro estatístico da evolução da pandemia. A primeira informação prestada é a de 8 de Outubro (Cor. c/ G. Civil, Lº 1609, fls. 23), em que não fora ainda informado de quaisquer óbitos da gripe epidémica, tendo conhecimento de casos só de gripe vulgar. E adianta que, no concelho apenas existem 6/8 médicos. Citemo-los: Dr. Eugénio Ribeiro de Almeida (Partido Camarário), Dr. José de Oliveira Gorjão (Hospital da Misericórdia), Dr. Vicente de Sousa Vinagre (H. Mis.), Dr. Vítor Lopes das Neves (Entroncamento), Dr. António Gonçalves (Soudos), Dr. Alfredo Martins dos Santos (Riachos) e Dr. Carlos José d’Azevedo Albuquerque (Riachos). A ausência do tenente-médico Dr. Augusto de Azevedo Mendes, do 4º grupo das Companhias da Saúde, de que se pede a cedência, por se tornar imprescindível. A 12, reúne com os médicos, a fim de se estabelecer o formulário a adoptar para o combate à gripe. A partir daí, verifica-se que a gripe cresce durante o mês de Outubro, e os princípios de Novembro, começando a declinar a meados do mês, até ao último caso, indicado a 28. A partir daí, a pneumónica não entra nos óbitos registados. A 7 de Dezembro, pergunta se em virtude de ter terminado a epidemia, ainda se torna necessário fazer a comunicação diária dos óbitos. A 17 cessa a obrigatoriedade das informações (idem, fls. 165).

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