Home > editorial > Sobre o golo que perdi

Sobre o golo que perdi

Ao ler a crónica de Ana Correia sobre a derrota dos Iniciados do Torres Novas voltei atrás no tempo: Um dia disseram-me que o meu pai foi um grande jogador de futebol. O mistério e o valor da camisa dez do meu pai levou-me, aos onze anos de idade, a jogar na equipa da Renovação, treinado por “Tony Pancinha”, que treinava para ganhar. Nas vésperas do torneio de 1 de abril fui destituído da equipa. Entretanto, não parecia haver um bom motivo, para que eu ficasse de fora desse importante torneio, que reunia todas as equipas da região, com meninos da minha idade. Em torno da minha casa tomei conhecimento de um conjunto que se formava numa aldeia vizinha. Treinavam para o torneio. Como eu jogava com os favoritos ao título e fazia parte da espinha dorsal dessa equipa, não encontrei dificuldades para entrar. Treinei bem e embora estranho aos colegas fui aceite pelo treinador, que não nos ensinava a ganhar.

Chegou o dia do torneio. O treinador confiou-me a camisa dez e a braçadeira de capitão. E o jogo começou. A meio do jogo uma bola da esquerda sobrevoou o guarda-redes e fiquei sozinho a dois metros da baliza sem guarda-redes. Um filme passou na minha mente: A vingança contra “Tony Pancinha”. O orgulho que devia ao meu pai. Os cumprimentos e abraços dos novos colegas. A alegria do meu crédulo treinador. Por outro lado, também pensei na possibilidade de errar. – Por favor, por favor, nisso eu nem podia pensar -, mas, a bola foi saltando, saltando… Então, não havia nada mais a fazer. Eu chutei para fora.
A minha vida dependia do golo que não fiz. E a minha honra foi esfarrapada. Eu tive que a reconstruir com o que sobrou. E sobrou quase nada. Fui chacoteado por um bom tempo na escola e até pensei em nunca mais jogar futebol. Quando me lembro desse requiem é como se aquele simples treinador se transformasse numa figura saída do nevoeiro da história. A sua presença na minha vida foi rápida e importante, pois ele me dignificara além do meu merecimento e mesmo assim não parecia arrependido. A firmeza da sua crença deu-me a coragem para manter as minhas. Ele ensinou-me que, o direito de acreditar em alguém é mais importante do que acertar. Através desse treinador compreendi que o pior erro é não confiar. Não arriscar. Não perdoar. Hoje o entendo. Ele não queria ganhar títulos. Ele queria, pela paciência e esperança, treinar as pessoas e dar-lhes valores.
Mas que diabo não ter marcado aquele golo…

Deixe-nos o seu comentário pelo facebook

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *