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Documento inédito sobre a tragédia do 9 de Abril

A participação de Portugal na Grande Guerra seria marcada por uma das maiores derrotas infligidas no campo de batalha às tropas lusas. Com uma dimensão apenas equiparável à desastrosa campanha de Alcácer-Quibir. O trágico acontecimento registou-se a 9 de Abril de 1918, na região da Flandres, e figura nos Anais da História com a designação “ A Batalha de La Lys”. Foi contra um Corpo Expedicionário Português bastante fragilizado que na madrugada do dia 9 de Abril, às 04 horas e 15 minutos, se abateu o poderoso exército alemão, constituído por quatro divisões com 50.000 homens. Mais do dobro dos soldados que integravam a 2ª divisão militar portuguesa. Na desnivelada batalha intervieram alguns soldados torrejanos (não podemos esquecer também os soldados que pertenciam ao antigo quartel torrejano, caídos no campo da batalha), que no final da horrenda contenda foram bafejados com destinos diferentes. Uns conseguiriam escapar, outros seriam feitos prisioneiros. A cinco deles a sorte revelar-se-ia funesta: o 1º cabo, Manuel Gaspar (1894-1918), natural dos Riachos, sucumbiu no fatídico dia. Destino idêntico cairia sobre o 1º cabo servente, João Lopes (1893-1918), natural da Brogueira, que desapareceu no campo de batalha, tragado pela voragem destruidora da infernal máquina assassina alemã. Já o soldado Manuel dos Santos Sardela (1893-1918),de infantaria 16 – colocado a 23 de Março de 1918 na Infantaria 29 –, natural de Assentis, morreria a 18 de Outubro, vitimado por gripe pneumónica, no campo de Merseburg (este soldado torrejano aparece nos registos por vezes com o nome de Manuel dos Santos, o que poderá induzir em erro o investigador menos atento). Num outro campo de prisioneiros alemão, em Münster III, perderia também a vida, também vítima de pneumonia, o soldado de Infantaria 5, José Antunes Rato (1895-1918), natural da Meia Via. No dia do ar
mistício, no campo de Stargard, seria vitimado por tuberculose pulmonar o soldado de infantaria 16, José Faria (1895-1918), natural de Alcorochel. A derrota do exausto e desorganizado Corpo Expedicionário Português seria o canto do cisne da participação militar portuguesa na Grande Guerra. Cheia de percalços e minada pelas tensões existentes no seio da família republicana. Colocando a descoberto as fragilidades do nosso exército, constituído por uma tropa mal preparada e assolada por uma grave crise moral, em resultado do cansaço e abandono a que fora votada pelos seus governantes. Em diversos sectores do país se fizeram sentir duras críticas à actuação do governo da União Sagrada. Culpado por acentuar o desamparo dos soldados portugueses, ao permitir a debandada dos oficiais do palco da guerra e de não renovar o enorme contingente de praças que há muito combatia. No rescaldo da célebre batalha do Lys, o jornal “República” enviou para a censura prévia (foi instituída pela Lei 495, de 28 de Março de 1916, como medida de defesa dos interesses nacionais durante guerra) as páginas do seu diário, onde ressalta um artigo bastante contundente em relação ao posicionamento do governo da União Sagrada no conflito. Os censores governamentais proibiriam a publicação do texto, saindo o jornal, na quarta-feira, a 24 de Julho de 1918, com o habitual espaço em branco, correspondente ao texto cortado.
Na efeméride dos cem anos da batalha do Lys, cabe a nós o
dever moral de arrancar a mordaça a este pedaço de memória viva. Grito de revolta contra a actuação dos governos republicanos durante a guerra, em particular o germanófilo executivo da União Sagrada encabeçada por Sidónio Pais. Que, por incompetência e desprezo, criminosamente condenaram à morte e ao sofrimento milhares de portugueses. Verdadeiros heróis que se bateram pelos ideais da “Liberdade e da Civilização” (nem o mais ardente pacifista pode esquecer que estes valores estavam em causa, e que urgia repor!). Acompanhemos, neste artigo, as cruciantes palavras do autor: “Em poucas palavras: «Para onde vamos?» Sim, o que os heróicos e lídimos portugueses do C.E.P. esperam impacientes e irritados são reforços e mais reforços; sobretudo os que por compromisso nacional lhes deviam ter sido enviados mensalmente, e cuja falta lhes acarretou, a mais de canseiras exageradas e esgotantes, a mágoa da deprimente situação em que se encontram, mormente de 9 de Abril para cá. Falta-lhes tudo. Faltam graduados de todas as categorias e espécie, para a conveniente e urgente reorganização dos elementos utilizáveis que lá se encontram ainda; precisam de contingentes de reforço de toda a ordem, para a sua reconstituição como C.E.P. categorizado e à altura da sua constituição inicial; precisando de artilharia grossa, própria, constituída pelos seus irmãos de sangue que, em grande número, deram já subidas provas de competência e valor; aguardam os seus irmãos aviadores que, pela tenacidade, coragem e aptidões, lhes garantem precioso concurso e estremecida camaradagem; e necessi
tam ainda que os incapacitados e esgotados, necessitam e exigem, sejam urgentemente repatriados, como o impõe e exige a mais rudimentar noção de dever, humanidade e justiça. E é grande o seu espanto, e irrita-se a sua heróica serenidade e isenção, ao verem a desleixada e criminosa inércia com que aqui se tem olhado para as suas instantes e compreensíveis necessidades; ao atentarem na dura e antipatriótica indiferença com que, na sua querida e amada Pátria, se olha para a sua deprimente situação, se encaram as consequências certas da miseranda e progressiva redução de eficácia do seu esforço em deplorável contraste com a intensificação à outrance da acção dos outros aliados – o que inexoravelmente se há-de fazer sentir quando chegar a hora decisiva do concerto da paz. Alheios à política de embustes, torva, provocadora e perseguidora que impera na sua longínqua e amada Terra, chegam a não compreender o que nela se está passando, tão insensato e tresloucado se lhes afigura o desvario que nela está predominando; antítese perfeita dos sentimentos e ideais de abnegação, isenção e sacrifício que eles, uma vez no alto posto de defensores da Pátria querida, com esmero e tenacidade têm vindo cultivando. Como se corresponde aqui a essa sua levantada atitude e nobre isenção? Com a indiferença, com o desleixo e com o abandono. Mais ainda. Não obstante o próprio presidentismo triunfante se haver sábia cautelosamente arrimado – quando ainda na sua pré-nascença – a nossa participação na guerra, e haver-se propalado por vezes de Abril para cá, a próxima remessa de grossos contingentes de tropas para os campos de batalha na Europa, sem que
jamais haja sido perceptível acto preparatório algum com semelhante objectivo, – o que tem sido bem visível no país inteiro, e continua a sê-lo, e a propaganda derrotista, tenaz e perversa, de que o nosso esforço militar não irá além do que já está feito, fazendo-se antever até a sua próxima e completa cessação, apoteosando-se ao mesmo tempo às escâncaras as qualidades de toda a ordem e a invencibilidade do inimigo com votos à mistura pela sua vitória; tudo isto praticado, não por autênticos inconscientes ou criaturas de pretendida menor cotação social, mas pela fina flor do germanofilismo e reaccionarismo nacionais – arrimo precioso da situação autocrática presidentista vigente [Sidónio Pais] – com evidenciamento, ido por vezes até à publicidade, de casos individuais bem elucidativos e impressionantes, em que se tem chegado a pôr em foco personagens de representação ou confiança oficial. A doblez de intuitos e procedimento é bem manifesta e visível, dadas; – a constituição e origens da mor parte dos elementos que escoram o presidentismo vigente [Sidonismo], e a campanha de sofismas e insinuações que sempre têm vindo fazendo contra a nossa participação na guerra, por motivos de pretendida desnecessidade uns, germanofilismo e intuitos inconfessáveis outros, e quase todos com pretexto de grandes despesas e desaproveitamento da ocasião única, à semelhança da vizinha Espanha [optara pela neutralidade no presente conflito]. Prosseguiremos” (texto censurado na pré-publicação do jornal “República”, Ano VIII, nº 2.673, Quarta-feira, 24 de Julho de 1918, pág. 1).
Texto escrito com a antiga ortografia.

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