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Torres Novas e a Páscoa: fúnebre e bela

Quando era adolescente também passei pela paixão. Mas encontrei refúgio num velho rádio a pilhas, por cau- sa de um programa chamado “Good Night Mundial”. E a divina beleza da música, que tocava depois das rezas do terço, era o que me interessava. E eu pensava comigo: se eu fosse Deus preferiria a música a rezas.
Mas Deus sabe o que faz. Nós é que não. A beleza é o jeito que Deus encontrou de comunicar com os homens, as notas musicais são a voz de Deus. Gosto da imagem do Espírito Santo em forma de pássaro. Gosto do voo do pássaro e gosto ainda mais do seu canto. Deveria o pássaro ser o símbolo da Páscoa e não o coelho. Coelhos colocam ovos?
O meu aparelho era velho e as ondas da rádio provocavam um grande ruído. Mas eu não perdia as esperanças. Continuava a procurar uma sintonia que lá no fundo anunciasse a beleza da música. Hoje eu entendo essa alucinação: todos os ruídos chegavam juntos e se misturavam com a acústica velha do meu rádio. Mas no meio do caos, a minha alma, sem que eu me apercebesse, distinguia o ruído caótico, da beleza que me comovia. E aí aprendi que a beleza mora no meio do caos. Mais tarde compreendi que aquele rádio velho, preparava-me para a vida, pois a vida toda é uma luta contra o caos sem sentido, em busca de uma beleza escondida.
Ando por Torres Novas e na sua arquitetura indefinida, no centro grafitado que cai, perscruto o seu mistério. E vejo uma paisagem bela na sombra do futuro. Na sobra do passado. Na tarde do silêncio. No som do sossego. Na luz de uma miragem fúnebre e bela: Como a Semana Santa, representada nessa caótica capa d´O Almonda, que anuncia a Primavera, a Páscoa e a Beleza escondida no meio do caos.
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